31.10.14

Pela manhã



Quando o despertador me expulsa da cama
Me impedindo de ficar

Sei que é inútil
Mas peço sempre para o tempo parar

E que não exista no mundo
Qualquer outro lugar em que eu possa estar

Afinal, não é querer muito
Não é pedir demais

Ficar mais um instante
Ter você um bocadinho mais

Os dias são sempre longos
A saudade não me dará paz

Por isso tento todos os meios
De no trabalho me concentrar

Encerrar logo os compromissos
E para casa o mais rápido possível retornar

30.10.14

Quando a mão amiga chegou



Com toda força nela te agarraste
E depois de saíres do poço
Sem muita demora
Até o peso perdido recuperaste

Hoje, olhando de dentro
A dimensão do buraco
Pode-se entender melhor
O trabalho que foi necessário

E é triste perceber
Ainda que sem querer
Repetiste a mesma receita
Que um dia te aplicaram

Foste embora
E nem ao menos suspeitaste
Como era necessária a tua presença
Em mais esta ação de resgate

29.10.14

Por favor



Não me enquadrem em modelos
Idealizados ou pré estabelecidos
Não coloquem no fogo por mim
Suas preciosas mãos
E nem me cobrem eternos compromissos

Vocês não sabem quem sou
Não ouviram minha a história
Não entenderam a minha lógica
Não imaginam de onde venho
E nem pra onde vou

Sou mutante por dentro
Enigmático para mim mesmo
Mudo os conceitos todo o tempo
Sem apegos, medos ou embaraços
Se o que penso acho certo e, o certo, válido

Mais ainda neste atual momento
Em que tenho me empenhado
Em resolver antigos desapontamentos
E por isso não posso mais ser
O mesmo que viam no passado

Busco a minha paz
E jamais aceitarei para sempre me sentir
De mim mesmo desencontrado
Agindo em desacordo com o que acredito
Pois nunca temi ser tachado de esquisito ou mascarado

28.10.14

Preciso informar



Que hoje
Pode ser até

Que o corpo
Venha a colaborar

Mas que o sentimento
Não terá como acompanhar

27.10.14

É que o meu jeito de te amar



Não confere
Necessariamente
Com aquele

Com que queres
Que te ame
Sempre

24.10.14

Estrela companheira



Que ha tempos sigo
E sem impor condições
Se acerca de mim
E me segue

Brilha à noite
Estreitando vínculos
Se despejando em carinhos
Até que sempre juntinhos
Nos encontre o sono
E em sonhos nos carregue

Também me ilumina o dia
Deixando qualquer infortúnio
Mesmo que profundo
Muito mais leve

23.10.14

Este ano


A água ainda não veio
E o lavrador chora
Pelo que já deveria ter colhido
Pelo suor perdido
E pelo solo seco

Tenta se manter firme
Pensando nos filhos
Apegando-se ao divino
Selando promessas
Clamando por misericórdia
E busca alento
Nas lembranças dos bons tempos
Tão presentes na memória

22.10.14

Comem da mesma comida



Mas não da mesma porção

Seguem com suas rotinas
Em seus próprios trilhos
Carregando nos ombros
O fardo da obrigação

Mas no final do dia
Com a jornada cumprida
Celebram o amor e a vida
Descansando as locomotivas
Sob o teto da estação

21.10.14

Novamente parei de fumar



Agora sofro
As tentações do querer
Mas continuarei a lutar
Pois desta vez
Consola-me saber
Que por mais dolorosa
Que a abstinência possa ser
Uma hora ela vai passar  

20.10.14

O beijo



Que antes
Do fundo da boca partia
E todos os territórios invadia

Hoje na irritante pressa
Conforma-se com a testa
Ou a face apenas tangencia

O abraço

Que antes
Estralava vértebras de tão apertado
E o corpo suspendia

Hoje não traz mais tanto conforto
Mal enlaça os amantes
Cada vez mais se distancia

O sussurro

Que antes
Ao pé do ouvido
Com pouca lenha a fogueira acendia

Hoje carrega asperezas
Palavras frias
Críticas cheias de rancor e ironia

O sexo

Que antes
Permeava todos os momentos
E até com imprudência acontecia

Hoje exige agendamento
Condições adequadas
E se embaraça na burocracia

A cumplicidade

Que antes
Contra as ameaças do mundo
Seguros em si os mantinha

Hoje resume-se à partilha de um leito
E quando ocorre de acordarem juntos
Mal se enxergam ou desejam bom dia

17.10.14

É triste ter que parecer feliz



Sempre

O mundo nos cobra a alegria perene
E temos que explicar
Sistematicamente

Que estar triste
Não é estar infeliz
Necessariamente

Que é triste estar infeliz
Mas a infelicidade é muito maior
Do que a simples tristeza que se sente

Que a tristeza neste momento presente
Não é infelicidade
E disto estou bem consciente

16.10.14

Ninguém abdica



De um amor inteiro
Para poder dispensá-lo
Já deve estar fraturado

O amor monolítico e verdadeiro
Triunfa pela certeza que tem
Na integridade de sua estrutura

Aquele amor imperfeito
Mesmo que carregue como defeito
Apenas uma tênue fissura

Pela dúvida
Estará sujeito ao fracasso
E com o tempo a terminar em pedaços

15.10.14

Somos seres frágeis, intensos



Dominados por sentimentos insanos
Tempestades que nos varrem por dentro
Sem atenção ou cuidados
Com a truculência dos tiranos

Correm desembestados
Quebrando objetos
Tirando tudo do lugar
E ainda espalhando os cacos

A razão precisa domá-los
Pois exite o risco
De fecharmos as janelas
E acabarmos sem luz, confinados

De bloquearmos as portas para o mundo
Com a montanha de entulho gerado
Até que um dia cheguemos ao ponto
De não mais conseguirmos ser visitados

14.10.14

Para dar vez à razão



É preciso distanciar-se um pouco
Sair do olho do furacão

Fazer um voo panorâmico
Olhar melhor

E confirmar de um outro ângulo
O absurdo da situação

13.10.14

Me ligas na madrugada



Acordo assustado
Não entendo uma palavra
Me pareces esquisita
Construções desconstruídas
Voz embargada
Parece que deliras

Como fui idiota
Não percebi na hora
Que o que de fato importava
Não era o que dizias
Mas o que querias
Era de ajuda que precisavas

10.10.14

Ele é um engenheiro convicto



Trabalha com cálculos
Estatísticas
Processos
Vive afogado em algorítimos

Enaltece o pensamento lógico
E em seu insofismável pragmatismo
Nem tenta entender os que sofrem
Seres inferiores que amargam conflitos

Orgulha-se de nunca ter se apaixonado
E quando quer o que entende como amor
Acha mais simples pagar pelos serviços
E chama isto de gestão de riscos

9.10.14

Tento seguir marcas imaginárias



Pegadas na areia
Daquela praia
Que um dia abrigou nossos sonhos
De caminharmos juntos
De mãos dadas

Agora estão cada vez mais difíceis
De serem encontradas
E nem mesmo as desajeitadas ondas
Podemos responsabilizar
Por apagá-las

8.10.14

Preciso que me devolvas



Os encantamentos todos
Que via nas coisas
E me pareciam óbvios
Enquanto estavas aqui

Agora que não tenho teus olhos
Vejo com clareza a minha cegueira
E sem alegrias na vida
Sei que sozinho nada entendi

E a sabedoria que julgava ter
Hoje me parecem tolices
Bobagens vazias
Se contigo não as posso dividir

7.10.14

E se amanhã eu acordar diferente



Por favor
Não me queiras mal
Sou um ser que não raro se perde
Demora a se achar
E muitas vezes
A si próprio não entende

Não gastes teu tempo pensando
Que este novo sujeito
Que agora te surpreende
É um modelo acabado
E será exatamente o mesmo
Que encontrarás aqui sempre

26.9.14

A dura realidade do peixe



Que debaixo d'água
No mar
O próprio sal
Não consegue diferenciar

Não obtém alívio de sua dor
Por não ter como observar
As lágrimas sentidas
Que deixou escapar

25.9.14

Mulher, Mulher



Acuaste-me sobre a cama
Com estes teus olhos
Profundos
Imensos
Olhos carregados de desejos
Injetados pela paixão
Para os quais não há como ter segredos
Despejaste-os sobre mim
Paralisando-me na fuga
Me comendo por dentro

Fecha-os agora mesmo
Abranda a tua fome
E acalma-te
Predadora felina
Desmancha-te
Em bocas
Mãos
Tetas
Cus
Bocetas

Esfrega cada parte
Sobre minha pele porosa
Sugadora e sedenta
Pois embora rendido
E refém
Também sou fera
Sou forte
Sou fraco
Sou homem
E não resisto a tanta oferenda

24.9.14

Não te empenhes demais



Para ter a quem não queres tanto assim
Não permitas que o desafio da conquista
Seja o que mais ativa a tua energia

O desinteresse não tardará a chegar
E assim que tiveres cativa
Aquela que acreditou na tua fantasia

Vais abandoná-la sem titubear
E isso não se faz
É pura covardia

23.9.14

No amor



Não se deve ter pressa
Em partir

É preciso ficar
Enquanto ele existir

Pois do amanhã
Nada se pode saber

E será triste
Ter que conviver

Com o arrependimento
De não mais poder desfrutar

Do que foi tão bom
E jamais poderá voltar

22.9.14

Tenho estado meio assim



Me sentido meio estranho
Sim
Preocupado
Em um dia acordar
E ao olhar no espelho
Logo cedo
Simplesmente ali não me achar

Temo neste momento
Não ter ninguém
Que me ajude a entender
O que esteja acontecendo
Que vá ao meu encalço
Mergulhe fundo no labirinto
Até me encontrar
Que me coloque de volta no caminho
Retorne sozinho
E tenha a paciência de me esperar

19.9.14

Se conheciam tão bem



E nem precisaram de muito tempo
Para que se entendessem
Melhor até que a si mesmos
Permitiram-se um acesso
Sem reservas
E disso nunca se arrependeram

Gravaram na memória
Cada olhar cortejado
Cada avanço negociado
Cada toque mais ousado
Cada palavra murmurada
Ou cantada como numa ária

Fizeram dançar as línguas
Alimentaram-se com suas salivas
Dormiram aninhados
Comparando as topografias
Pondo atenção no entendimento
De cada detalhe do relevo

Estreitaram suas vidas e suas rotinas
Trocando juras de amor
Respirando o mesmo vapor
Rindo quando a fornalha acendia
Alagando de sentimentos
Todos os compartimentos

Visitaram sensações inusitadas
Que sozinhos jamais seriam alcançadas
Ajudavam-se puxando um ao outro
Para que chegassem juntos
Ao cume do morro
E apreciassem de lá a paisagem

Mas veio a guerra
E acabaram em lados opostos
Seus povos tornaram-se inimigos
E se viram em situação de conflito
Matando semelhantes
Sem nem mesmo entender o motivo

Quis o destino que se encontrassem novamente
Mas desta vez com sangue nas mãos
E dispostos ao extermínio
Reconheceram-se prontamente
E a morte só não aconteceu
Porque a mão não obedeceu

Não tiveram forças para acionar o gatilho
E com os olhos baixos e sem nada falar
Cada um deixou o outro passar
Seguindo em frente no seu caminho
Sabendo que jamais seriam capazes de apagar
O que um dia foi infinito

Hoje não existem mais perspectivas
Se acham confinados em trincheiras
Cavadas em seus próprios domínios
Abriu-se entre eles um abismo
Mas cultivam em segredo as lembranças
De como um dia foram felizes

Tudo que lhes restou de palpável
Ficou resumido nas fotos de um pequeno álbum
Umas poucas imagens para que lembrem
Que o que viveram não foi sonho
Aconteceu neste mesmo mundo, num tempo recente
E que ainda não se sentem assim tão diferentes

18.9.14

Apega-se a uma vida tacanha



Tem medo de tudo
Só decide usando sapatos de chumbo
Recusa-se a voar

Até admite que existe um muro
Mas não quer nem mesmo saber
O que do outro lado é possível encontrar

17.9.14

Amor que é amor



Não cede espaço
Mesmo quando sente medo

Não recua
Por motivo alheio

Não falha
Usando velhos argumentos

Se não evoluiu com o tempo
Fracassou bem no meio

E amor pela metade
Não é amor

Acaba ficando sem graça
Vira um inútil passatempo

16.9.14

Acho que nunca nos daremos bem



São muito parecidas
As nossas diferenças

15.9.14

O tempo chegou



Viu que a porta estava aberta
Anunciou-se em voz alta e entrou

Não se desculpou pela demora
E sem que ninguém autorizasse levou embora

O que o silêncio há muito escondia
O corpo de um amor já sem vida

Era preciso dar-lhe um fim honroso
Para que tivesse paz em seu eterno repouso

Um sepultamento digno de um guerreiro
Que lutou todas as batalhas fora de seu reino

Colocando na bandeja o próprio coração
Doando-se inteiro por uma paixão

12.9.14

Minha poesia para existir precisa de você



Para existir precisa falar com você
Precisa fazer amor com você
Falar de amor com você