16.1.19

Cinco e meia


Acordo assustado
Corpo molhado

Uma tristeza imensa
Coração apertado

No infinito da cama
Me sinto pequeno

Fico perdido
E temo por estar sozinho

15.1.19

Por que te decepcioso?


Será que é porque não sou mais
Aquele de tempos atrás?

Mas isto não é defeito
Independeu da vontade

Neste mundo
Até os mortos mudam

Querer que alguém
Corresponda exatamente

Ao que trazes na memória
É ilusão

O único jeito
Que poderia deixar o que se vê

Ficar igual
Ao que está no pensamento

É se fosse possível
Paralisar o tempo

Mas a tua decepção
Deve estar acontecendo

Não pelo fato de ter eu ter mudado
E sim pelo que me tornei

Algo que não atende mais
À tua fantasia

Mas o que me importa hoje de fato
É que agora eu me sinto melhor

Mais centrado
Feliz e realizado

14.1.19

A solidão


Não é uma estranha
Em minha vida

Vai, Querida
Vai viver
O que precisas

Muitas vieram
Todas se foram
Motivos para partir
Não faltaram

E ainda que o amor
Sobrevivesse
Não serias tu
A exceção
Neste jogo de dados

Agora vai
Vai viver
A tua vida
Mas deixe a porta aberta
Para que possa entrar
Uma outra visita


11.1.19

Sabe-se que o amor está para acabar


Quando o prazer é pouco
E a dor segue pelo caminho oposto

Quando o tédio domina
E o silêncio passa a fazer parte da rotina

Quando esgotam-se os planos
E só se enxergam os danos

Quando quase tudo é lembrança
E não se usa mais a palavra esperança

Quando predomina a tristeza
E sorrir passa a ser um ato de destreza

Quando os sonhos são abandonados
E parecem maiores os obstáculos

Quando falta envolvimento
E a vida se afoga no medo

Quando muitos são os argumentos
E cada um passa a colecionar os seus segredos

Quando há pouca cor
E tudo desbota perdendo também o sabor

Quando diminuem os cuidados
E os incidentes são justificados pelo acaso

Todos notam quando os sinais são evidentes
Mas os amantes geralmente são negligentes

Deixam que a inércia assuma o leme
E a reversão está apenas nas mãos de quem sente

Para isso primeiro é preciso admitir
E nem sempre é fácil reagir

Mas enquanto houver algum afeto
Os amantes não devem abdicar do mesmo teto

E se ainda arder alguma chama
Precisam continuar compartilhando a cama

Pois o contrário seria a consagração do fim
E a aceitação de que não há mais trabalho neste jardim

10.1.19

Fundamentos


Nos dão a base
Argumentos
Orientam nossas vidas

Mas precisamos ficar atentos
Não aceitar a cegueira dos extremos
Mantendo a crítica

Deixar-nos escravizar por preconceitos
Nos torna fundamentalistas
Sujeitos a repetir os erros dos fascistas

9.1.19

Amor que definha


E não termina
Desorientado
Desvitaliza
Fica desestruturado

E ainda que mastigado ao infinito
Deglutido
Segue amorfo
Empastado

E por mais que seja absorvido
Esvaziado
E descaracterizado
Nunca estará esgotado

É amor de eterno vai e vem
Cada vez mais irreconhecível
Espectro do que foi em tempos idos
É chamado de amor ruminado

8.1.19

C'est très facile de mentir


Difficile est d'accepter
Que la mensonge
Parfois c'est
La sortie la plus digne
À éviter
Quelqu'un
Finir par être blessé

7.1.19

Quando o retrocesso


Toma as rédeas
E dita a conduta a ser seguida
Qualquer ousadia em se escapar da canga
Ou olhar fora da bitola
É considerada subversão
Uma ameaça aos valores
E à ordem estabelecida
Por isso precisa ser reprimida
Sem misericórdia.
Por ignorância querem nos classificar
Por medo querem nos enquadrar
Numa paleta de cores restrita
Nos fazer sentar passivamente
Num par de cadeiras iguaiszinhas
Um de frente pro outro
E ficar ali calados aguardando ordens
Tendo que pedir autorização para falar
Aceitando tudo de forma polida
E parecendo concordar
Sem exceção.

Mas não devemos nos sujeitar
A qualquer restrição
Exigimos respeito às diferenças
E para isso será preciso restaurar
A escada da luz e da liberdade
Numa corrente de união
Usá-la para saltar o muro
Do ódio
Do preconceito
E da discriminação
Ganhar o mundo
Fazendo valer nossos direitos
Exigindo viver a vida
Como a de qualquer cidadão
Seguindo sua natureza íntima
Com coerência e amor
Sem vergonha do que se é
E rejeitando com todo o ímpeto
As forças do obscurantismo
Sem exceção.

4.1.19

Por um tempo


É, por um tempo
Nunca se sabe ao certo por quanto tempo
Pode parecer até que tudo foi sufocado
Que tudo está sob controle
Que tudo é para sempre
Que nada mais será diferente
Mas a verdade é que no universo
Nada pode ser considerado eterno
Monolítico, imutável
Indestrutível, inexpugnável
Nada está definido
Nada está acabado

Repare que aos poucos, bem aos poucos
Surgem sinais de desgastes, fissuras no processo
E onde antes só se viam soberba e insanidade
Truculência e inflexibilidade
Acontece uma sequência sutil de fatos
Escorregam os controles e as coisas escapam
Não conseguem mais ficar sujeitas
Apenas às leis humanas e tacanhas
Voltam a valer o bom senso
E a inteligência espontânea da natureza
Voltam a prevalecer os desígnios da expansão
E da contínua mudança

21.12.18

Na maior parte das vezes


Ninguém gosta de abandonar o seu lugar
O sujeito sai contra a vontade
Por exemplo do campo para a cidade
Não para enxergar outra realidade
Mas porque lá onde nasceu
E se reconhece
Esgotaram-se as possibilidades
Vencido pela fome
Pela guerra
Pela ganância
É convencido a migrar
Este drama
Disseminado pelo mundo
Fere fundo
Destrói vidas
Arruína culturas
Fratura comunidades
Compromete identidades
Não é recente
É vivido desde sempre
Desde que que existe a humanidade

20.12.18

Uncertainty principle


We can not be sure of anything
Not even that
We can not be sure of anything

19.12.18

Onde um dia


Existiu o amor
E nada mais pode ser encontrado

Alguns seres de sensibilidade rara
E instintos apurados

Conseguem perceber notas sutis
Sinais esparsos

Vestígios voláteis
Do que ficou no passado

Verificam que em algum lugar resiste
Ainda que esteja soterrado

Pois quando o sentimento é de verdade
Não tem como morrer sufocado

Sempre deixará saudade
Uma forma de existir é ser lembrado

18.12.18

Amore quando è vero


Non può essere valutato
Come giusto o sbagliato

17.12.18

Hoje


A exceção está se tornando a regra
O anormal virando o normal
O mundo é quase todo virtual
Mas ainda há tempo
De evitar o aprofundamento deste mal
Resgatando um maior contato com o mundo real
Reconectando o homem com a natureza
Para que ele não se aliene de vez
Para que ele não adoeça
Para que  ele não enlouqueça
Para salvaguardar a sua essência
Criando limites para a inteligência artificial
Sob o risco de que um dia
A humanidade seja definitivamente escravizada
Ou desapareça

14.12.18

In relation to our love


It is difficult to define
If we are

At the end
From the beginning

Or at the beginning
Of the end

13.12.18

Não tem jeito


Passa o tempo
Passo por tantas outras, mais jovens
Com promessas de novos horizontes
Outros encantamentos
Mas retorno sempre pra ti, mala querida
Minha boa e velha amiga
Companheira fiel de longas jornadas
Resistente impávidas às chuvas e trovoadas

A última encerrou ontem
Sua curta empreitada
Quebrou-lhe a alça
Deixou-me na mão
Perdeu a função
Quedou-se em casa
Reduzida a uma caixa vazia
Triste e desamparada

Não deixará saudades
Não tivemos tempo de criar intimidades
Mas maleta frágil, esteja tranquila
Não ficarás oca assim por toda a vida
Já pensei para ti uma outra serventia
Abrigarás nossas fotos antigas
Servirás como o fiel guardiã
De nossas memórias mais queridas

12.12.18

Se foi pra valer


Tudo o que aconteceu
Independente do tempo ou lugar

E se alguma coisa ficou
Que ainda valha a pena cultivar

Então desce e abra a porta
Para que eu possa entrar

11.12.18

O que sinto por ti


É diferente do que sentes
É maior
É mais intenso
E temo que seja assim para sempre

E como não o sentes
Em igual medida
Sei que não me entendes
Pois só ama quem sente

Aceito até que não me entendas
E não há como ser diferente
Mas se ao menos me acreditas
Isto me deixaria bem menos descontente

10.12.18

Hoje no castelo


Quem da as cartas
É o obscurantismo e o retrocesso

O berço esplêndido está repleto
De parasitas, oportunistas e mascarados

O templo foi devassado e recebe
Toda a sorte de mercadores e vendilhões

E sem que ninguém os expulse à chotadas
Saqueiam livremente o que não lhes pertence

Nos domínios do reino
A porção do povo que não foi enfeitiçada

Sente-se perdida
E está paralisada pelo medo

O demiurgo tosco e descontrolado
Sem estatura para portar cetro e coroa

Não consegue perceber
A dimensão do embaraço que um rei precisa resolver

7.12.18

Me desprezas


Como se eu não mais existisse em tua vida
Não quero chamar tua atenção
Mas se quisesse
Facilmente conseguiria

Me bastaria
Publicar tuas fotos
Te denunciar pros amigos
Te ofender de forma cruel e fria

Abrir nossos e-mails
Espalhar nossos segredos
Gritar embaixo da tua janela
Rasgar a roupa e ficar nu na portaria

Atravessar fora da faixa
No exato instante
Em que aceleras e passas
Quando pela manhã vais à padaria

Mas loucura nenhuma me adiantaria
Mesmo que entendesses o meu desespero
Me perdoasses e me aceitasses de volta
Prometendo devolver a minha alegria

Eu não conseguiria retornar
Pois não teria como viver e sofrer
Um novo aborto amoroso
Isto definitivamente eu não aguentaria

6.12.18

Nous étion ce que nous étions


Nous sommes ce que nous sommes
Ou ce que nous pourrions être
Après tout, vivre
Est d'avoir à choisir

Mais ce que nous sommes
Nous sommes pour de vrai
Et ce que nous étions
Nous ne reviendrons jamais

5.12.18

Accepter que tu es seul


C'est très différent
D'estre conformé en reste seul

4.12.18

Mesmo na manhã mais cinzenta e fria


É possível encontrar uma corzinha
Deixar-se iluminar pelos olhos
E esforçar-se para aquecer um pouco o dia

3.12.18

Cicatrizes são inúteis


Quando a mão
Que empunha a lâmina
De um dado sentimento
Ainda não foi amputada

Porque súbito
A qualquer momento
Pode vir
Uma outra navalhada

30.11.18

O Amor


Exige coragem
E capacidade de improvisar

Chega sempre sem avisar
Para que não consigamos nos preparar

Aí precisamos reagir
De forma rápida e precisa, sem titubear

Sob o risco de que o trem passe
E deixemos de embarcar

29.11.18

No amor


Quase nada é possível
Planejar

Mas nem por isso
Necessariamente
Ele se torna frágil

Ou está condenado
A fracassar

28.11.18

Enquanto vejo que falas


Estando à tua frente
Não ouço as palavras
Passa um filme em minha mente
Já muito conhecido
Que ficou em cartaz
Por um tempo longo, mal definido
E que não deixou saudades
Mas sim cicatrizes evidentes

Eu deveria saber
Que numa situação assim
Eu jamais conseguiria ficar indiferente
Que tudo voltaria a acontecer
Inevitavelmente
Então por que correr o risco
De reviver o previsível
E sofrer tudo novamente?

27.11.18

Tempos de ódio?


Tempos de dor?
Sim, mas o ódio é um equívoco
Falível e vazio
Não se sustenta

E toda dor é efêmera
Uma hora passa
Mesmo que alguns duvidem
Ou queiram que isto nunca aconteça

Só o amor merece ser perene
Mas isso requer atitude e resiliência
Não julgue nada apenas pelo que vê
Assim você se arrisca a deixar-se iludir pela aparência

Alguém pode estar num duelo feroz
Contra um facínora sanguinário
Ou pode estar apenas amanado
Precisando de respeito e privacidade

Pode também estar ajudando a um amigo
Numa travessia difícil
Em que ninguém mais tenha conseguido
Enxergar a sua deficiência

Muitas são as leituras possíveis para qualquer cena
Quando não se tem clareza
Por isso, antes de tudo, tente ser justo
Agindo com serenidade e prudência

26.11.18

L'amour


Quand il est réel
Il accepte pas attendre
Tout est pour 1'instant

Il doit arriver
Peu importe
Ce qu'il doit faire

23.11.18

Vous puvez


Diviser votre boisson
Avec quelqu'un qui vous intéresse

Passer le vin de bouche en bouche
Partage le même lit, la même tasse

Mais c'est seulement avec moi
Que l'ivresse vous met en état de gâce