2.6.14

Aderbal



Era um cara normal
De dia
Trabalhava como uma mula
De noite
Era noticiário na TV
Novela e Planeta Animal

Numa certa manhã
Aderbal acordou diferente
Tinha sede de sangue
Fome de gente
Não se satisfez com as habituais
Bolacha Maria
Leitinho gelado
E queijo quente

Deixou tudo sobre a mesa
Saiu às ruas
Olho arregalado
Instinto assassino
E no estômago
Um vazio desesperado

Logo na primeira esquina
Encontra uma prima
Moça bem constituída
Peitos fartos
Coxas grossas
Olhar lascivo de rapariga

Quando a viu
Não se inibiu
Saltou sobre a parenta
E sem dar atenção aos predicados
Abocanhou logo o pescoço
Arrancando-lhe numa só dentada
Jugular carótida e parte da escápula

A morte foi imediata
Arrastou o cadáver até sua casa nas proximidades
E com uma faca bem afiada
Separou o conjunto em pequenas partes
Congelou tudo
Para comer cada pedaço no momento apropriado

Foi aí que teve a ideia de compartilhar a comida
Com os vizinhos da aldeia
E chamou-lhes para um churrasco
Pedindo que trouxessem o vinho
E algum complemento para o repasto

Vieram muitos
Se fartaram
E depois de ficarem suficientemente embriagados
Aderbal foi chamando
Um a um para o canto
E atacando seus pescoços imaculados

Ao fim do trabalho
Tinha aumentado significativamente
Seu provimento de cadáveres
Considerou isso como um bom investimento
E animado com tamanha fartura
Não hesitou repetir o evento
Convidando toda a freguesia de sua banca de frutas

E assim como um homem de boa vontade
Que se propunha a alimentar toda a cidade
Durante as comemorações da Semana Santa
Justificou a presença da carne
Alegando que era importada do Vaticano
E que o lote recebido
Tinha sido pelo próprio Papa benzido

Marcou para o dia seguinte a festividade
E tratou de iniciar os preparativos
Para uma grande comilança
Pois agora acreditava
Ser seu dever sagrado
Sua missão
Alimentar toda a população
E cumpriria sua sina
Nem que fosse com o sacrifício da própria vida

Escalou na igreja com o vigário
Um grupo de voluntários
Para organizar a multidão
E distribuir a comida de forma organizada
No dia da reunião

Duas toneladas de arroz
Uma de feijão
E todo o necessário para o ensopadão
Não se esqueceu nem mesmo da cenoura
Batata e pimentão

Depositou na grande panela
Os acompanhamentos
E todas as peças que com cuidado estocou
Temperou com esmero
E antes avisou aos incautos
Que haveria um ingrediente surpresa
Mas que não seria a sobremesa

Quando tudo já estava quase pronto
E antes de que alguém chegasse para dar início ao encontro
Subiu na escada que usou para alcançar
E mexer a gororoba
Tirou toda a roupa
Saldou a São Pantaleão
E saltou incontinente para dentro do imenso caldeirão

As pessoas foram chegando
Comeram o quanto quiseram
Encantaram-se com a riqueza de sabores
Mas estranharam a ausência do anfitrião
E isso serviu para reforçar ainda mais o mito
Que já estava em construção:

“Aderbal o gentil cidadão
Aquele que não mediu esforços
Para sanar a fome do seu irmão”

Retornaram para suas casas
Felizes e saciados com a farta refeição
Aderbal nunca mais visto
Foi homenageado com busto e placa em estação
Seu nome foi cedido à “Casa de Repouso Aderbal o Bondoso”
Entidade duramente mantida por um humilde religioso
E que assim teve suas necessidades melhor atendidas
No volume de doações recebidas

Só um mistério ficou para sempre no ar
E ninguém nunca soube ao certo como responder:
Qual teria sido o ingrediente secreto
Que Aderbal usou e não deixou a ninguém transparecer?

A polêmica cresceu
E autoridades em gastronomia
Foram forçadas a acreditar
Que o desconhecido tempero
Uma vez incorporado ao prato
Deve ter sido o responsável pelo sabor tão inusitado

Inúmeros chefs foram chamados
Para tentar decifrar e reproduzir o preparado
Mas apesar dos esforços e das inúmeras tentativas
Nunca se conseguiu a receita definitiva

E a hipótese mais aceita
Baseada no princípio da incerteza
É de que a doação despretensiosa e plena à humanidade
Possivelmente dá nome e identidade
Ao misterioso elemento surpresa

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