18.6.15

Um mar de sangue no amarrotado dos lençóis



Foi o que ficou na lembrança
Sangramos muito
Fluido rutilante que nos escorria

Você aos jorros com suas carnes abertas
Sem entender bem o que acontecia

Eu com minhas lágrimas rubras
Conjuntivas infartadas
Artérias destroçadas pela própria mordida

Encerramos nosso tempo em constrito esgotamento
Olhando o silêncio e o estrago que nos envolvia

Tendo que gravar o vermelho nas retinas
Que se espalhava por paredes
Piso, cortinas

E que nos acompanhou pelo caminho
Passando a tingir tudo em nossas vidas

Almodóvar certamente se divertiria
Vendo tão fielmente reproduzidas
Suas mais loucas picardias

17.6.15

Às vezes penso



Que há momentos
Em que falamos línguas distintas

A confusão do verbo
No dia a dia

Mas o que de fato existe
É desencontro e silêncio

A ausência do sentido
Sem prosa ou poesia

16.6.15

Não aceitarei ser penitenciado



Por pecados que não cometi
Deuses que não são meus
E leis que desconheço e não escrevi
Não serei profanador de ídolos
Ou herege em pele de cordeiro
Pronto para ser imolado
Na pedra de qualquer altar sagrado

Não me curvarei frente a cruzes carcomidas pelo tempo
Carregadas ao longo dos séculos por inquisidores boçais
Juízes armados com diagnósticos toscos
Proferidos por bocas podres
Sob o efeito alucinógeno de seus credos loucos

Sacerdotes ensandecidos que viram noites
Amolecendo o couro dos chicotes no próprio corpo
Ao encontro do inferno
Auto-flagelo, êxtase doloroso
Repetindo suas ladainhas cíclicas, infinitas
Assentados em genuflexórios forrados de pregos
Até que a exaustão e a inconsciência os receba

Cultivam as delícias de suas chagas purulentas
Alimentando-as com a sujeira das unhas
Para depois exibirem-nas com orgulho
Monstruosas esculturas de cicatrizes
Vestes de virtudes feitas de carne
Chancelas da barbárie que pensam lhes garantir direitos
Em identificar e eliminar os males da humanidade

Bebem o sangue dos inocentes
Pervertidos que sufocam seus medos e instintos
Incinerando a libido das bruxas em praça pública
Mutilando com a lâmina afiada dos dogmas e ritos
Seus caralhos tesos insurgentes, subversivos
Antes que o gozo lambuze seus espíritos
Liquefaça suas mentes
Impreça-os de condenar
Os destitua do púlpito e os condene

Necessitam resgatar o mito da virgem que pariu
Em bocetas já devidamente comidas
Como se pelo cu também não se pudesse gerar vidas

Usam um discurso obtuso e cego
Da obediência incondicional
A um divino misterioso, desconhecido
Que confunde amor com ódio
Que a todos trata como putas vadias
Revelando-se cruel e vingativo

Onipotente construído a partir de leituras tendenciosas
De textos caducos, emendados, mal traduzidos
Distorcidos e de intenções mais que duvidosas

15.6.15

Não duraram 1 dia



As flores que te dei
E o sonho de resgatarmos
A espontaneidade daquela antiga alegria

Não duraram 1 semana
A harmonia no amor
E a partilha de nossa cama

Não duraram 1 mês
A energia viva da esperança
E as tentativas de uma reconquista

Não duraram 1 ano
Os poucos momentos que tivemos
E julgamos tão seguramente guardados

Não podem mais ser enxergados
Fotos, filmes, lembranças
Tudo apagado

12.6.15

Boa noite



...
Quanto tempo, né?
Pois é
Pela voz, vejo que bebeste
Sim
Quanto?
O suficente, creio
Sempre te pedi que parasse
Faço apenas o que quero
Foi o que nos separou
Se é o que pensas
Pois então bebe mais, vai bebendo
Como assim?
Estou indo pra aí
Agora?
Sim
É muito tarde, por favor, não venha
Vou sim

Não tens como me impedir
Acho melhor que te enbriagues
Pois quando eu chegar
Também beberei
E quando a razão nos faltar
Sei que não resistirás
Sei que não resistirei
Então me amarás
E eu te amarei
E no pouco tempo que teremos
Nada mais no mundo importará
Que se danem os bons costumes
Ou os ditames da lei
Mais um dia sem ti
Não ficarei

11.6.15

O amor



Não é para teóricos estritos
Ou literatos com um olhar distanciado

Não é para profissionais e seus algorítimos
Mas para amadores, poetas com acesso irrestrito aos recantos mais íntimos

Envolve essencialmente abordagens práticas
Em que o indivíduo é laboratório de si e cobaia

Conclusões não podem ser tiradas de forma apressada
Mas só depois de repetitivos experimentos

Não tem como ser tocado num instrumento desafinado
Todas as suas interfaces devem ser vivenciadas à contento

Despreza expectativas comportamentais da psicologia
Permeia história e filosofia

Não dá a mínima para a pedagogia
Física e matemática servem apenas de alegorias

Age diretamente na fisiologia
Por isso é que tem uma relação tão íntima com a medicina

E nos seus aspectos mais primitivos
Com a química e biologia

Frio na barriga
Arritimia no coração

Olhos injetados, soluços
Sapos muitos, difícil deglutição

Cotovelos inchados
Cegos de paixão

Suores frios, arrepios
Instabilidade anárquica da pressão

Esquizofrênico desespero
Fel de mágoas, depressão

Claudicância do espírito
Dependência na indecisão

Êxtase infinito quando correspondido
Alucinada indescritível satisfação

Certeza de ter vivido
Humanidade em permanente construção

10.6.15

Todo médico deveria saber



Que a dor que o sujeito sente
Não é maior do que a dor de ninguém

Que a dor de um ser
Não se pode comparar com a dor de outro ser

Que a dor que o sujeito tem
É a maior dor do mundo para este mesmo alguém

Que a dor infinita daquele a quem ele atende
Deve ser infinita para ele também

E que quando existe um remédio adequado
Todos ficarão bem

Mas se não há medicamento indicado
Ou ele não pode ser tomado

Uma lágrima compartilhada
Um desabafo

Um olho no olho
Um abraço apertado

Um ouvido atento
Um conselho bem dado

Podem ajudar a amenizar o medo, a dúvida
Ou até mesmo dar conta do caso

9.6.15

Sabes bem o que foi perdido



Quando dispensate acesso
Aos compartimentos mais íntimos deste teu servo
Sabes também que em função desta atitude
Tão meticulosamente calculada
Neles nunca mais terás pousada

Esperava que até o último instante
Que enfiarias o pé no vão da porta
Evitando que ela se fechasse de vez
Mas isto não aconteceu
E agora não há mais razão para lamentos
Pois nem ao menos vejo hoje nesta questão algum relevo

Os livros todos que ao longo dos anos juntei
E que eram de tua exclusiva leitura
Não perderam fundamento
Não se tornarão ração para cupins
Nem meros ornamentos
Continuarão bem cuidados
Até que apareça uma outra criatura
Ainda ávida por conhecimento
E que possa fazer melhor uso deste acervo

8.6.15

Se não tiveram



A vida toda para viver
Ao menos lhes foi dado
Um tempo
Mesmo que pequeno
Para poderem se lembrar
E no amor
Continuarem a crer

3.6.15

Das dores de amor todos sofrem



Pela falta
Excesso
Por viver
Ter vivido
Ou só pelo projeto

Gênero ou classe
Elas não escolhem
Não respeitam idade
Condição física
Ou sanidade

Os que amam talvez melhor saibam
O que isso significa
Bastando que recebam a esporádica visita
De um único forasteiro:
A lembrança maldita

Andarilho cruel
E egoísta
Que chega sem se anunciar
Ocupa o que julga ainda ser
O seu lugar

E depois de ter o corpo saciado
O bolso forrado e roupas limpas
Volta a se perder na vida
Sem se importar com o que deixou pra trás
Ou com as saudades de quem fica

2.6.15

ATA



O “T”
Abre as asas

E os dois “As” envolve
Aproxima

Abraça
Abriga

Une
Harmoniza

De trás pra frente
De frente pra trás

Métrica diminuta
Mesma rima

Amor que vai
Amor que vem

Escultura do léxico
A sintaxe acaricia

Nada mais importa
Total sintonia

É na horzontal
Que de fato o mundo gira

1.6.15

Num descanso rápido



A lua no céu
A lua no lago

Te vejo no céu
Te vejo lá embaixo

Abraçada à lua
Choras

Desespero
Coração apertado

Estendo os braços
Não te alcanço

Me atrapalho
Quase caio

É duro admitir
Ainda não é hora

Cuida dela pra mim
Oh, lua amiga

Mas só até o dia
Em que termine aqui minha lida

Atiro uma pedra
Espelho turvado

Sigo meu caminho
Pés cada vez mais inchados

29.5.15

O que é menos pior



A ardência irascível e corrosiva
A vertigem desorientadora
A inconstância convulsiva
A inutilidade da razão
A falta do chão
O apito bombástico e enlouquecedor
De um amor inviável e maldito?

Ou a catatonia fria e silenciosa
A boca murcha e vazia
A inapetência crônica e insossa
A amputação sistemática dos dedos
O sucateamento do espírito
De um ser mendicante por princípios
Só e indigno?

28.5.15

Disseste que me deixarás



Assim que encontrares
Um outro alguém
Que possa te levar
Na hora não quis entender
Mas agora preciso te perguntar:

De que então valeu
Tanto esforço e dor
Para conseguir mudar
Nesta história tão confusa
O meu jeito de te amar?

27.5.15

Carnal criatura



A indecência telúrica do teu sussurro
O aroma frutado do teu hálito
As voltaicas faíscas nas tuas orelhas
O aliciante sal no teu pescoço
O úmido chicoteado dos teus cabelos
O doce néctar da tua saliva
O turbilhão quente de tuas narinas

A altivez orgulhosa de tuas escápulas
O irrecusável chamamento dos teus braços
O abrigo perfumado de tuas mamas
Mamilos lenhosos que me marcam o peito
A maliciosa maciez da tua barriga
A determinação pinçante de tuas coxas
A genialidade libidinosa da tua bunda
A arquitetura refinada de tuas ancas
A acidez enebriante da tua virilha
O convite imperioso da tua vagina

A experiente ligeireza de tuas mãos
A desavergonhada gula com que me olhas
A luxuriosa sabedoria da tua boca
A sutil ameaça dos teus dentes
A esperteza lasciva de tua língua

Visitas retribuídas
Buscas sem pedagogias
Encontro de recantos quentes
Frestas muradas
Crípitas labirínticas
Lábios sobre lábios
Orifícios dos mais delicados
Jóias cuidadosamente escondidas

Curiosamente
A tudo exploramos
Lambemos
Cheiramos
Circundamos
Chupamos
Mordemos
Acarinhamos
Entendemos
Catalogamos
E sem embaraços
Penetramos

Fosfenas
Silvos
Espasmos
Gemidos
Gritos
Lágrimas de prazer
Murmúrios
Risos

O gênesis renovado
Cataclismas apocalípiticos
Múltiplos ângulos
Misturados
Redesenhados
Nascendo e morrendo juntos
A cada novo ciclo

Possuidos
Esgotados
Esparramados
Abusados
Lambusados
Devassados
Amalgamados
Preservados
Protegidos

Para sossegarmos os instintos
Para que nos sintamos cada dia mais vivos
Para que viver tenha de fato valido
Para estreitarmos ainda mais nossos vínculos
Para sempre nos lembrarmos
Para jamais sermos esquecidos

26.5.15

ATA



O teu
Sexo

No meu
Sexo

Aceita
Meu amplexo

O côncavo
E o convexo

Amor
Circunflexo

Dispensa
Resumo e anexo

Despreza
Tudo que é reflexo

E pauta-te
Só no nexo

Desta história
Que me põe perplexo

Almas imbricadas
Arranjo simples e complexo

25.5.15

Existem momentos em que a mão



Insiste em desobedecer o pensamento
Mas na maior parte das vezes
Consigo contê-la a tempo

Meus mecanismos de crítica e atenção
Servos fiéis da razão
Costumam estar atentos

22.5.15

Quando estás ausente



Uma gélida planície se abre na tua medade de cama
E se estende e se estende
Até até atingir os pontos mais remotos do continente

Um deserto destituído de vida
Em que meus inúmeros braços sobram carentes
Não encontrando algo que os contenham ou contente

E quando na madrugada a temperatura desaba
O sono desobediente me ignora
Pilhas de cobertores não são suficientes

Maldita a hora em que te deixei ir embora
Não consigo descansar se não tenho como me aninhar
No teu corpo macio e pés sempre tão quentes

21.5.15

Odeio os que não perdem o controle



Os que nunca fumaram
Jamais se embebedam

Que não gritam
E ao desespero não se entregam

Os que desviam os olhos
E saem sem defender o que pensam

Que mesmo sob intenso perigo
Empacam no sinal vermelho

Os que não quebram tudo no seu entorno
Consumindo-se por dentro

Que se olham no espelho
E mesmo só vendo fragmentos

Não aceitam ajuda
Têm medo

Esperam por um mundo melhor
Mas não movem um dedo

Não protestam
Se calam

Aceitam migalhas
E tementes rezam

20.5.15

Quem vive uma grande paixão



Tem carta branca pra exagerar
Mas ainda assim é preciso tato
Nesta forma de amar

É necessário abrir espaço
Para que algo mais sereno
Possa se impor e funcionar

A maturidade traz um outro olhar
Mais apropriado
Com a realidade do par

Névoas de fantasias e idealizações
Depois de sorvidas e degustadas
Precisam se desmanchar

Pois se isso não acontecer
A razão não for contempalada
E o tom intempestivo predominar

Surgirão equívocos, frustrações
E tudo que se pensou construído
Correrá o risco de terminar

19.5.15

Infectos curtumes



Peles esticadas ao sol
Craqueladas
Rígidas feito tábuas
Reino ruidoso das varejeiras ensandecidas

Urbes ocas e sem espírito
Vertendo humores fétidos
Exsudatos gosmentos

Uniformizando tamanhos e cores
Abandonando pelo caminho
Montes de carcaças pútridas

Dos que foram derrotados
Inconformados com a ordem dos fatos
Jamais aceitos ou compreendidos

E os restos que os urubus recusaram
Ou o visgo que os vermes regurgitaram
Depois de completarem seu ciclo

Vão se transformando num pó
Delicado e fino
Inodoro e invisível

Que se espalha com o vento
Nos entra pelas narinas
E acaba incorporado
Para nunca mais ser percebido

18.5.15

Seria um erro exigi-la



Como mulher concreta
Carne e osso
Fruto de minha costela

Preciso concebê-la
Numa condição mítica
Musa imagética

Inspiração ideal e etérea
Sem a qual seria ainda mais miserável
A minha poética

14.5.15

Quando conseguires finalmente entender



Pode ser que os tempos sejam outros
Que seja tarde demais para reagir
E eu tenha conseguido novamente ver
Que um rio ainda passa por aqui
Largo e tortuoso
Avançando calmo e convidativo
Querendo levar meu barco
Para lugares distantes e desconhecidos

Pode ser que já esteja terminado
O muro que entre nós
Aos poucos foi sendo elevado
Que nossos acessos fiquem bloqueados
E se torne cada vez mais claro
O fato de que nossos mundos
Tornaram-se mesmo antagônicos, distintos
E irremediavelmente separados

13.5.15

O tempo já nos deu a sentença



Estamos todos condenados
Desde que nascemos nossos dias estão contados

As contas podem não ser lá muito precisas
Mas é certo que cada dia é menos um dia

E todos de alguma forma sabem
Que não há espaço para bagagem

Quando a luz se apaga
E neste mundo precisarmos abrir vaga

Mas nem mesmo isso serve de argumento
Para nos diminuir a soberba e clarear o pensamento

Para convencer a nós mesmos
De que não devemos desperdiçar mais nenhum momento

Do muito que já nos escapou por entre os dedos
E do pouco que ainda temos

De que é preciso abdicar da ignorância
Arranjar as coisas na exata ordem de sua importância

E nos debruçarmos prioritariamente sobre os fatos
Que fazem valer a nossa condição humana

De trabalharmos duro e seriamente
Pois disso depende a vida no planeta e dos nossos descendentes

Mas sei como é difícil tirar a bunda do assento
Rompermos com nosso encastelamento

Admitirmos que nossa visão míope
Não vai muito além de nós mesmos

Talvez seja este nosso principal defeito
A valorização excessiva do único umbigo que temos

A ilusão de sermos uma entidade superior e auto-suficiente
E o descompromisso com o meio

12.5.15

O tempo sugere que permaneçamos juntos



Acredita que neste ponto de nossos traçados
É melhor que continuemos fazendo
O que sempre fizemos:
Trabalharmos unidos
Valorizando o que temos
Reforçando os lastros
Enchendo ainda mais os bolsos com os seixos coloridos
Que encontrarmos pelo caminho

Doses diárias de amor, admiração
Confiança, carinho, respeito
E tudo o mais a que temos direito
Para poder resistir à coerência das marés
E a força dos ventos
Que nos querem ver isolados
Arrastados para continentes distintos
Distantes
Tornando impossível
Outra vez cruzarem-se nossos destinos

Pois se por esmorecimento
Crença em miragens ou capricho do divino
Esta desventura nos sucedesse
Quando chegassem aqueles momentos
De saudades, carência e sofrimento
Sem a chance de sermos resgatados
Possivelmente tristes e insatisfeitos
Acabaríamos morrendo

11.5.15

Foi o tempo quem me mostrou



Que chaves não servem para nada
Quando nas portas que se tem
As fechaduras estão emperradas
Algumas não poderão ser abertas
Outras jamais trancadas

8.5.15

Não tive tempo de te mostrar



Tudo o que encanta o meu dia
As canções que me fazem suspirar
E todas as formas de amar que conhecia

Nem mesmo as delícias
Que conseguimos experimentar
Sabores exóticos
Novas melodias
Foram suficientes para te segurar
Por pelo menos mais um mísero dia

O mundo novamente se fez notar
Conseguiu atrair tua atenção
Te seduziu com ouro
E as pérolas de um colar
Reavivando tua antiga ilusão

Venceu meu querer
Pisou no meu gostar
E transformou meu castelo
Antes tão festivo e cheio de vida
Numa montanha de escombros
Um patético coração vazio e em ruínas

7.5.15

Foi muito tempo que deixamos passar



Faltou-nos continuar
Fomos atropelados pelo excesso de acontecimentos
Não sabemos mais por onde começar
Perdemos o jeito
Agora em nossos momentos
Mergulhamos num grave silêncio
Inevitável
Desconfortável
Mas curiosamente sereno

6.5.15

Achei melhor parar de contar o tempo



Segundos e minutos de nada valem
Me induzem ao erro e ao imperfeito
A insuportável urgência da modernidade
Pretensão dos jovens e da tecnologia

As horas não mais me importam
Eu as vejo inexoravelmente perdidas
Seguindo vazias pelo ralo
Como água da bica

Dias são só uma infantil referência
Que me alivia da angústia
Vestindo uma fantasia
E fazendo a vida me parecer menos finita

Meses são roseiras plantadas à beira da estrada
Fecham a trilha e ficam com um pouco do meu sangue
A cada tentativa em mudar de rumo
Cada ousadia

Os anos se acumulam em pilhas
Incutem transformações mais lentas
Me mostram a exata dimensão de minha impotência
Insistem em me importunar com prazos estourados, promessas não cumpridas

As décadas, essas sim me convencem de que há um fim de linha
Me fazem inventariar o passado
Alguns projetos concluídos, outros arquivados para não causar mágoas ou alterar desígnios
Pura malandragem ou sabedoria
Conquistas suficientes para aquietar o espírito, perdas progressivas

5.5.15

Fora de nossa cama



De nosso quarto
De nossa casa
Não preciso saber por onde andas
Ou que verdade falas
Me importam mais
O teu crescimento
A tua felicidade
A tua segurança

Mas quando estás aqui
Em nossa casa
Em nosso quarto
Em nossa cama
Que sejam só meus os teus pensamentos
Sejam só teus os meus abraços
Que o nosso prazer seja pleno
E nosso amor intacto