26.6.14

Adeus, foi esta a última palavra



E não poderia ser outra
Resultou numa dor infinita quando proferida
Precisou de fórcep para ser parida

Não se usa a tenaz como única alternativa
Sem que se tenha uma boa dose de medo
Sem que haja uma ameaça real à vida

Pois não é pequena a chance de sequelas
Interpretações equivocadas
Desespero e mágoas

Quis o destino que em suas histórias
Cruzariam novamente
Caminhos e trajetórias

O tempo não impediu o reconhecimento
E depois de tantas jornadas e batalhas
Havia muito a ser compreendido e relatado

Parearam conquistas e afinidades
E constataram como as guerras lhes tinham dado
Cicatrizes nas almas e transformado as faces

Compararam seus uniformes puídos
E verificaram com enorme tristeza
Que hoje eram de exércitos irreconsiliáveis e distintos

As forças lhes faltaram, estavam cansados
Os pés descalços não suportariam
Caminhar sobre tantos espinhos

Seus reinos eram por demais distanciados
Os obstáculos intransponíveis, excessivos
E não poderiam negar a única verdade: era tarde

Montaram então suas cavalgaduras
Fizeram uma recíproca reverência
Deram vivas aos Deuses e Majestades

Emperdigaram os narizes, proferiram o derradeiro vocábulo
E seguiram viagem tomando direções divergentes
De volta às terras de suas gentes

Onde cada qual teria como reencontrar
Com seus corpos restaurados e corações acalmados
A felicidade a que tinham direito, como tesouro herdado

25.6.14

Na última vez em que bailaram



Estavam tão apaixonados
E dançavam com tanto entusiasmo
 
Que passaram das medidas
E nem repararam
 
Que colecionavam nos pés
Bolhas que já iam virando feridas
 
Mas até nisso viam graça
E como crianças
 
Desprezando a dor
Apenas se riam
 
Ferimentos sempre cicatrizam
Diziam
 
E mesmo que não fiquem visíveis
Viram sinais
 
Tatuagens que levariam consigo
Independente das idades
 
E estas seriam apenas suas
As marcas do amor e da felicidade
 

24.6.14

O silêncio



É o único amigo
A quem se pode confidenciar
Algo tão importante
Como um amor verdadeiro
Que por entre os dedos se deixou escapar

O silêncio

É o único parceiro
Capaz de entender o sentimento
As bocas costuradas
O enclausuramento das memórias
A necessidade de se deixar de sonhar

O silêncio

É o único irmão gêmeo
De quem se pode aceitar conselhos
E que não te condena por se lamentar
Quando considerar que o preço a ser pago
É alto demais

23.6.14

Num momento de constrição



Deus desce à terra
Senta-se ao lado do Filho
Segura-o pela mão e chora

Admitindo o erro
Aconselha-o ao desterro
Partir enquanto há tempo

Afirma em tom resoluto
“Desista, deixa este mundo
Ele não te entendeu direito”

"Parte
Mas parte já
Antes que te destruam por dentro"

18.6.14

É duro lidar com o silêncio



Quando ainda há
Tanto a ser dito

É difícil suportar a dor
Quando não há remédio
E se sabe tão bem o motivo

17.6.14

No me gusta



O incolor
O inodoro
E o insosso

Ser pioneiro em algo
É sempre difícil
E até mesmo doloroso

16.6.14

Espectros não farão morada


 
No oco da minha cabeça

Aonde aranhas
Cobras e lagartos
Não se sentiram abrigados

Foi criado o espaço
Pano branco sobre montes e vales
E um horizonte não delineado

Paleta de cores em poças distintas
Palavras soltas ao vento
Melodias não pautadas

Ferramentas à espera de artistas
Cenário revirginizado
Útero a ser ocupado

13.6.14

Não cabem mais plantas em nosso jardim



Apelo para o bom senso
Pare de trazê-las enquanto é tempo
Não as faça mais multiplicar
Façamos com as que já temos um manejo

A disputa entre elas é inglória
As mais fortes
Com sua sede de vitória
Espalham-se e tendem a predominar

Algumas mais atrevidas
Inconformadas com as condições oferecidas
Escalam telhados e muros
Em busca de outros mundos

Não querem ser agressivas
E sabem que mais cedo ou mais tarde
Ainda que não acabem por vencidas
Ferirão e sairão feridas

Mesmo as mais frágeis
Não estão assim tão desassistidas
Quando seriamente ameaçadas
Acionam outras estratégias de sobrevida

Se veem possibilidade de não vingarem
Disseminam sementes lançadas, grudentas ou aladas
Transferindo para outras searas
Sua linhagem, sonhos e expectativas

11.6.14

Cães de pequeno porte



Muitas vezes
Não dimensionam bem
O tamanho de sua sorte

São voluntariosos
Ardidos e intolerantes

Não se apercebem
Dos perigos que correm

Quando encaram
Alguns primos maiores
E suas bocas enormes

10.6.14

Não quero



Que me dirijas mais
Qualquer palavra

Teu canto de sereia
É feitiço

E quando me encontra
Me embala

É difícil resistir
A esta serenata

Se queres ficar
Fica

Mas vem
Senta e cala

9.6.14

O vento



É o operário do tempo
Remodela montanhas
Levanta o pó da estrada
Carregando consigo
Sonhos efêmeros
Lamentos silvados
E cantos de felicidade

Versos livres
Vividos daquilo que um dia
Já foi o hoje
Fuga para longe
Veículo sem controle
Confronto contínuo
Com os laços da realidade

O amor
É a própria essência do vento
A força que gera o movimento
O sopro que anima
Fogo-fátuo inocente
Que não pode ser cultivado
E se apaga com facilidade

O passado que uniu
Também é capaz de afastar
Páginas escritas com lágrimas
Engessam lembranças
Estão fincadas em outro terreno
Não reconhecem mudanças
Acabam míopes frente a uma nova verdade

6.6.14

Tem compaixão



Não excedas no poder
Que tens nas mãos
Não me peças
O que eu não posso te dar
Pois jamais te diria não

5.6.14

Teus dias são curtos



As noites longas
Profundas

Os meus extensos
E as noites rasas, curtas

Enquanto sonhas
Atendo

Enquanto resolves
Descanso

Lembranças colorem
Encontros imaginários

Sonhos
Que são vontades

Pensamentos
Mágicos
 
Cometas que brilham
Prata polida

Momentos raros
Sentimento alimentado

4.6.14

Como confiar em alguém



Que em nada muda
Não importando
A estação do ano
Ou a fase da lua?

3.6.14

Não é fácil ir



Deixar-te
Partir

Não é fácil ficar
E não te completar

Lutar implica em sofrer
Não lutar também

Como não disseminar a dor?
Como recuperar a paz?

É injusto o ônus
Que se tem que arcar
 
Quando tanto já se paga
Por não poder amar

2.6.14

Aderbal



Era um cara normal
De dia
Trabalhava como uma mula
De noite
Era noticiário na TV
Novela e Planeta Animal

Numa certa manhã
Aderbal acordou diferente
Tinha sede de sangue
Fome de gente
Não se satisfez com as habituais
Bolacha Maria
Leitinho gelado
E queijo quente

Deixou tudo sobre a mesa
Saiu às ruas
Olho arregalado
Instinto assassino
E no estômago
Um vazio desesperado

Logo na primeira esquina
Encontra uma prima
Moça bem constituída
Peitos fartos
Coxas grossas
Olhar lascivo de rapariga

Quando a viu
Não se inibiu
Saltou sobre a parenta
E sem dar atenção aos predicados
Abocanhou logo o pescoço
Arrancando-lhe numa só dentada
Jugular carótida e parte da escápula

A morte foi imediata
Arrastou o cadáver até sua casa nas proximidades
E com uma faca bem afiada
Separou o conjunto em pequenas partes
Congelou tudo
Para comer cada pedaço no momento apropriado

Foi aí que teve a ideia de compartilhar a comida
Com os vizinhos da aldeia
E chamou-lhes para um churrasco
Pedindo que trouxessem o vinho
E algum complemento para o repasto

Vieram muitos
Se fartaram
E depois de ficarem suficientemente embriagados
Aderbal foi chamando
Um a um para o canto
E atacando seus pescoços imaculados

Ao fim do trabalho
Tinha aumentado significativamente
Seu provimento de cadáveres
Considerou isso como um bom investimento
E animado com tamanha fartura
Não hesitou repetir o evento
Convidando toda a freguesia de sua banca de frutas

E assim como um homem de boa vontade
Que se propunha a alimentar toda a cidade
Durante as comemorações da Semana Santa
Justificou a presença da carne
Alegando que era importada do Vaticano
E que o lote recebido
Tinha sido pelo próprio Papa benzido

Marcou para o dia seguinte a festividade
E tratou de iniciar os preparativos
Para uma grande comilança
Pois agora acreditava
Ser seu dever sagrado
Sua missão
Alimentar toda a população
E cumpriria sua sina
Nem que fosse com o sacrifício da própria vida

Escalou na igreja com o vigário
Um grupo de voluntários
Para organizar a multidão
E distribuir a comida de forma organizada
No dia da reunião

Duas toneladas de arroz
Uma de feijão
E todo o necessário para o ensopadão
Não se esqueceu nem mesmo da cenoura
Batata e pimentão

Depositou na grande panela
Os acompanhamentos
E todas as peças que com cuidado estocou
Temperou com esmero
E antes avisou aos incautos
Que haveria um ingrediente surpresa
Mas que não seria a sobremesa

Quando tudo já estava quase pronto
E antes de que alguém chegasse para dar início ao encontro
Subiu na escada que usou para alcançar
E mexer a gororoba
Tirou toda a roupa
Saldou a São Pantaleão
E saltou incontinente para dentro do imenso caldeirão

As pessoas foram chegando
Comeram o quanto quiseram
Encantaram-se com a riqueza de sabores
Mas estranharam a ausência do anfitrião
E isso serviu para reforçar ainda mais o mito
Que já estava em construção:

“Aderbal o gentil cidadão
Aquele que não mediu esforços
Para sanar a fome do seu irmão”

Retornaram para suas casas
Felizes e saciados com a farta refeição
Aderbal nunca mais visto
Foi homenageado com busto e placa em estação
Seu nome foi cedido à “Casa de Repouso Aderbal o Bondoso”
Entidade duramente mantida por um humilde religioso
E que assim teve suas necessidades melhor atendidas
No volume de doações recebidas

Só um mistério ficou para sempre no ar
E ninguém nunca soube ao certo como responder:
Qual teria sido o ingrediente secreto
Que Aderbal usou e não deixou a ninguém transparecer?

A polêmica cresceu
E autoridades em gastronomia
Foram forçadas a acreditar
Que o desconhecido tempero
Uma vez incorporado ao prato
Deve ter sido o responsável pelo sabor tão inusitado

Inúmeros chefs foram chamados
Para tentar decifrar e reproduzir o preparado
Mas apesar dos esforços e das inúmeras tentativas
Nunca se conseguiu a receita definitiva

E a hipótese mais aceita
Baseada no princípio da incerteza
É de que a doação despretensiosa e plena à humanidade
Possivelmente dá nome e identidade
Ao misterioso elemento surpresa

30.5.14

Minha Dona



Para que arrumar a cama
E tentar apagar as marcas de tua presença
Se ninguém mais ocupará este lugar
Se aonde quer que eu vá
Teu perfume está no ar
E meus olhos sempre encontram
Quem contigo se pareça?
 
Neste nosso caso
Tempo e distância
Não desbotam fotos
Não vestem de gala as lembranças
Não criam no peito um vácuo
Nem diminuem a esperança

29.5.14

En tiempo de cumpleaños



Nos resta somar trinta
À igual quantia já decorrida
E só aí serão sessenta

Mais os vinte
De quando começamos
Passaremos dos oitenta

Que idade fantástica
Para que com o coração ocupado
E a mente saudável
Possamos resolver juntos
Simples equações matemáticas!

28.5.14

O silêncio



É o maior dos castigos

A indiferença machuca mais
Do que qualquer atrito

Fere o sujeito por dentro
Esgota-lhe o sangue "in vivo"

E o vazio acaba por ser preenchido
Só com os argumentos do sinistro

Artimanha maligna do nada
Voo às cegas no infinito

Labor burro e improdutivo
(Inaceitável)
Quando ainda existe algo a ser dito

27.5.14

Tudo está em outro ritmo



Tudo está claro
E esta ausência da noite
Acelera o consumo
Do pouco de humano
Que ainda guardo comigo

O desânimo
A falta de empenho
E o egoísmo no trato
Não me ajudam a atravessar o espelho
Para encontrar no país das maravilhas
Algo que se pareça
Com um reino encantado

O contato raso
Não alivia a carga de embaraços
De quem se sente um espantalho
Nariz de palhaço
Gasto
Usado todo dia
Atrás de uma mesa de trabalho

Ao lúmpen existencial
Só resta a mendicância passiva
Conformando-se com as sobras
Que lhe são colocadas à vista

Pois na sua idiotia constitucional
Vive tranquilo a fantasia
De que as coisas são como são
E de que tudo vai bem
Tudo está normal

26.5.14

A voz do poeta foi calada



Não teve lugar na sala
Da cozinha foi expulsa
No quarto ficou aprisionada

Sufocada pelas vontades e sem alento
Emolduradas por incontáveis verbos
Conjugados no futuro do pretérito

23.5.14

O que diferencia o bacana do supimpa?



Bacana é termo do momento
Supimpa está em desuso é obsoleto
 
Bacana é complexo e empostado
Supimpa é simples e desencanado
 
Bacana é programado
Supimpa espontâneo

Bacana faz questão em exibir as conquistas
Supimpa se alegra com o que tem e partilha
 
Bacana vem sempre com uma proposta
Supimpa não se importa em ser contatado fora de hora
 
Bacana é auto referente
Supimpa quando encontra o novo fica contente
 
Bacana pode ser dúbio e fleumático
Supimpa é explícito e bem-humorado
 
Bacana se lembra da noite anterior
Supimpa liga para comentar também o que veio depois
 
Bacana é “in”
Supimpa é “out”
 
Bacana é smart fone
Supimpa é quando toca o interfone
 
Bacana é Fasano
Supimpa é Tordesilhas
 
Bacana é o Empire State Building em  Manhattan
Supimpa é a água que não chega ao chão quando desaba da Fumaça
 
Bacana é whisky
Supimpa é cachaça
 
Bacana é o commodity da soja
Supimpa é a verdura no prato que vem da própria horta
 
Bacana é o político fraco
Supimpa é o que resiste aos esquemas montados
 
Bacana é jazz
Supimpa é samba
 
Bacana é sono leve e entrecortado
Supimpa é rede na varanda, cochilo e um livro do lado
 
Bacana é helicóptero, jet sky e Angra
Supimpa é colher cogumelos nas montanhas da Espanha
 
Bacana é o revascularizado do mercado financeiro
Supimpa é ter o câncer só como lembrança de um tormento
 
Bacana é crer em Deus
Supimpa é amar a criação
 
Bacana agrega valor
Supimpa agrega gente de valor
 
Bacana é pra dentro
Chiclete sem açúcar
Ruminado ao infinito
Nunca engolido
 
Supimpa é projetado
Caroço de melancia cuspido
Concurso de mijo
Numa peleja entre meninos
 

22.5.14

Me vejo em pedaços



Jogo das metades que se encaram
Dicotomia
Que aproxima e distancia
Interface absoluta
Repetitivamente se encaixam
Sem que jamais ocorra a mistura

Caleidoscópio
Sem hiatos
Ângulos obtusos
Arranjos confusos
Instáveis
Inusitados

Não há cantos cegos
As imagens são lindas
Simétricas e coloridas
Iluminam a vida
São infinitas no cilindro
Que nunca termina

Força e vontade
Amor em quantidade
Lado de lá/Lado de cá
Cabeças sem corpos/Corpos sem cabeças
Cabo de guerra
Não se vê desigualdade
 
Compartimento sem portas
Em que não se sabe como entrar
Espelhos lisos demais para se escalar
Não há como escapar
Apenas uma janela para olhar
Impasse

É preciso respirar
Dimensionar espaços e intensidades
Saber o que a realidade pode dar
Ser pragmático
E por um tempo
Parar com o inútil girar

21.5.14

Já fui chamado de louco



Ingênuo
Sonhador
Ridículo
E tantos outros pejorativos
Que até me acostumei com isso

É que eu simplesmente não consigo
Manter um vínculo duradouro
Com aquilo que não acredito

Estou só com meus conflitos
Indisfarçavelmente nu
Expondo minhas entranhas
Ao apetite dos urubus

E quem me vê assim
Não compreende
Rejeita
Estranha
Olha de lado
Sente-se ameaçado

Num primeiro momento
Teme
Mas em seguida
Se defende
Cravando as garras em meu pescoço
Como quem combate um demônio

As rugas em meu rosto
Mostram o crescente desconforto
E no ápice do atrito
Grito
Até que o desespero me esgote a voz
E meus olhos não tenham mais lágrimas
Mas apenas transpirem ofegantes
Pelo esforço excessivo

E assim sigo em meu caminho
Cansado
Roçando no chão
Os bicos dos sapatos
Com o olhar vendado
Fechando os ouvidos
Ao canto adocicado das feiticeiras
Libidinosamente oferecidas em altares dourados
Fundamentados em falsas certezas

E se é a luxúria vazia
O orgulho míope ou a soberba
Que orientam a travessia
Percebendo a força da gravidade
Mantenho ativas as defesas
Resisto ao calor
Tangencio a órbita da realidade
Me aproveito do impulso
Ganho velocidade
E de volta ao cosmos
Retorno sem carregar saudades

Me distancio aliviado
Projetando minhas vontades
Na direção de outros arranjos intergalácticos
Sítios mais afinados com minhas escolhas
Buscando encontrar um ambiente adequado
Atmosfera morna e confortável
Mítica Cirene contemporânea
Onde o amor seja único idioma praticado
E como uma joia de infinita importância
Para a eternidade possa ser preservado

20.5.14

Noiteiam desacontecimentos



E a imaginação se deixa levar
Pela névoa gosmenta
Quase sólida
Que reveste a paisagem

Os vapores do vinho em excesso
Rodopiam pensamentos
Pintam de prata
Os espinhos dos conflitos
Agitam as cabeleiras do desespero
Ventaneiam com extrema força
Tentando dissipar tormentos reprimidos

Caem borrascas repletas
De ensurdecedores silvos
Ciclotímicos
Paranoicos
Lagartos pícnicos
De mãos atadas
Com suas línguas amputadas
Ousados
Mas tímidos

Velhos espectros
Campeiam searas estéreis
Em busca de memórias falsificadas
Sentimentos prosaicos
Amores não consumados
Estéticas inventadas
Sofrimentos requeridos
E sobras das latas de lixo

O pulso fraco e elástico
O suor gélido da angústia
O amargo hálito da culpa
A pele plúmbea e desvitalizada
A parte podre da fruta
Que sempre chega antes às papilas
Acompanham o arraste
Da marmórea carcaça inflamada
Cansada de enfrentar tantas colinas
E suportar as dores de pés abscedados

Há crostas de um sangue negro e pegajoso
Nos pontos do corpo
Atravessados por flechas enferrujadas

Na tentativa de voltar para casa
Chovesfria subitamente
Não há marquises nem agasalhos
A morada distante
Distancia
E o andarilho no centro do asfalto
Perseguido por serpentes albinas
Perde-se na conta dos postes
Excessivamente iluminados

Desvia dos cães
De olhos injetados
Teratomas de ódio
Uivando para a própria imagem
Na superfície das poças d'água
Erupção magmática de saliva
Dentes pútridos
Em bocas carniceiras e envenenadas

Uma legião de sombras pervertidas
Se posiciona nas esquinas
Preparando ciladas
Com argumentos caducos
Empíricos e pouco testados

A gravata apertada sufoca o grito
Um rato insiste em ser amigo
Mas com seres desta estirpe
Não se deve estabelecer diálogo

Hoje a lua não surgiu
A vontade de ver o ser amado inverte o viver
O sol voltou pelo mesmo caminho
Que no dia anterior sumiu

As putas fumadoras de crack
Quando desocupadas
Coçam suas sarnas
Roçando as costas nos muros chapiscados
Protegem sua nudez cadavérica
Dos olhares pudicos
Vestindo casacos encardidos
E fugindo do orvalho
Disputando entre si os orelhões quebrados

A água que sai do chão
Encharca o céu de um vermelho intenso
A enxurrada retarda as passadas
Encharca galochas
E as meias puídas pesam
Não comportando todas as lágrimas
Transformam expressões atônitas
Em sardônicas máscaras desalmadas

E quando não se morre afogado
De frio ou de desgosto
O alívio da dor se dá pela asfixia da alma
Socando para dentro da própria garganta
O mesmo pano que Verônica usou
Para enxugar o rosto
Daquele que abandonado
Não era mais corpo
Mas a semente de algo que quando surgiu
Não se entendeu
E para sempre virou justificativa
Para toda espécie de mentira

9.5.14

É um ensejo



Um lapso no tempo

Hiato em que na penumbra
Uma luz se insinua
Atravessa o quarto
E como um raio
Acende teus olhos
De forma única

E é com este olhar
Incandescente
Que de um jeito algo lânguido
Meio malemolente
Me enxergas por inteiro
Transpirando uma paixão ardente

E neste úmido momento
Como um contra senso
Tua expressão é tão serena
E tua beleza tamanha
Que me calo e paro
Apenas para te contemplar

Pois para mim
Neste memorável instante
Nada no mundo
É mais adorável
A vida se justifica
Como algo de fato importante

8.5.14

Voa pensamento voa



Segue teu caminho
Livre semente alada
Levada pelo vento

É inútil fazer planos
Firmar promessas
Traçar rotas orientadas só pelo desejo

Pois é grande o risco
De acabar semeado em outro lugar
E não se estar lá no exigido momento

7.5.14

Retratos de criado-mudo não são espelhos



Não te transformes na sombra
De quem hoje é só reflexo e vive da memória
De um tempo de troféus e glórias

Não entregues de mão beijada teus bens mais preciosos
O querer e a liberdade
Conquistados às custas de tão dolorosas lágrimas

Apaga o abajour
Dá as costas ao passado
E dorme com a consciência tranquila

Vez ou outra pesadelos hão de visitar o teu sono
Mas se permaneceres firme na lida
Fantasmas não mais farão morada em tua casa

Não encontrarão ali conforto
E abandonarão o lugar
Assustados com a tua felicidade

6.5.14

Não se imobiliza um coração



Mesmo que fraturado

Tala e gesso só iriam condená-lo
Deve ser espontânea a reparação

Não aprendeu a sobreviver ficando parado

5.5.14

Olho que não pisca



Gente que não arrisca

O tempo passa
A vida passa

E não avisa