28.8.15

Sempre soube



Que este momento iria chegar
O dia em que seria preciso
A alforria deste amor decretar

Arrancá-lo do peito
Mandá-lo passear
Chutá-lo para fora
(Se preciso for)
E sem a possibilidade do não
Convidá-lo a se retirar

Pois nada mais tenho
Para lhe oferecer
Recusa-se a aceitar
Minha forma de querer
Ocupa espaço
Apenas pelo hábito de ficar

Assim quem sabe um outro ser
Desarmado nele queira se aninhar
E uma troca mais justa possa enfim se iniciar

27.8.15

Comment croire



Il ya encore un peu de vie
Dans ma difficile de marcher
Si même pas le bruit des pas
Maintenant, je peux écouter?

26.8.15

Resposta ao Itamar



Só o próprio ser
Tem como desdobrar
Suas esquinas

25.8.15

A fome vem do não



Mas o excesso de não

A fome
Engole

Quem tem fome
Engole

Até o próprio não
Engole

24.8.15

Só não entendo por que



Que depois de tanto caminhar
E quando finalmente chegas em frente
De nossa antiga morada
Empacas

Me chamando
Com tuas lágrimas
Me chamando
Sem usar palavras

E mesmo com a porta escancarada
E o piano repetindo pela enézima vez
A introdução da ária
Que mais adoras cantar

Não consegues entrar
Achas mais fácil seguir em frente
E numa futura ocasião, mais fortalecida
Quem sabe, novamente tentar

21.8.15

Deixarei a luz da varanda acesa



A porta da frente encostada
A mesa posta
E a cama arrumada

Para que quando quiseres voltar
Antes que sejas castigada pela dúvida
E cogites recuar

Apenas girando a maçaneta
E sem nenhum esforço
Possas entrar

20.8.15

Não queiras tirar lição



Do que possas encontrar
Nestes escritos sem lógica ou razão
Não encares como verdades
As tragédias e sofrimentos
Expostos aqui inteiros ou pela metade
Não leves tão à serio
As artimanhas inventadas por alguém
Que não se compromete com quem lê

São frutos de uma imaginação
Que pulula e necessita deste movimento
Espremendo palavras
Destilando versos
Vestindo-os de sentimentos
Amor, paixão
Agudos e circunflexos
E que talvez tenha o divertimento
Como única intenção

19.8.15

It may seem incredible



But the most important things
That exist in the world
And forever stay
Are invisible

18.8.15

Mas se o beijo é arte



Então também pode tornar-se
Música ou poesia
Expressar-se como quiser
Ser totalmente livre
Ou cercar-se de garantias
Usando ritmo, métrica
Rima e melodia

17.8.15

Preciso tirar, um a um



Os inúmeros véus dos teus muitos sonos
Alcançar a morada dos teus sonhos
E verificar se ainda me acho por lá

Se ocupo a mesma caixinha
Na qual um dia com tanta delicadeza
Me acomodaste para o teu coração sossegar

Saber que música hoje toca ao abri-la
Se é nova ou antiga
E em que tom foi composta
Maior ou menor

14.8.15

Barcos de todos os tipos



Trazidos por alísios
Às vezes calmos
Outras tempestuosos
Chegam ao meu porto
E não te vejo desembarcar

Mas não deixo de vigiar o horizonte
Os sois que descem
As luas que sobem
Pois sei que pode até demorar
Mas um dia precisarás voltar

E eu estarei no cais
Pronto para amarrar tua corda
Estendendo a minha mão
Para que em terra firme
Novamente consigas pisar

Enxugarei o oceano do teu rosto
Saciarei o teu corpo
E te darei o mesmo ombro
Ainda rochoso
Para que possas descansar

E ficarei contigo até o momento
Em que não conseguires mais resistir
Em que ceder significará
Ter outra vez que partir
Atendendo aos chamamentos do mar

13.8.15

Virtual aseptic relationship



Seu mundo
Mundo nenhum
O mundo do outro

Compartilhar momentos
Não garante conteúdo
Nem contentamento

Mesmo mundo
Outro mundo
Mundo oco

Dividir o leito
Assentados em conhecimentos
Vindos só de intangíveis meios

Pode não ser solução
Para deletar a solidão
Ou garantir envolvimento

12.8.15

A arte da boca é o beijo



Comer
Qualquer um come

Falar
Qualquer um fala

Mas beijar bem
Exige talento

11.8.15

Ergo canteiros em muitas searas



Passo a mão no terreno
E me ponho a observar

Sinto sua maciez fértil
Mas não me atrevo a plantar

Plantar significa saber
E exige cuidar

Mas antes é preciso vencer
O medo de fracassar

10.8.15

L'amour



Il est quelque chose qui doit être partagé
Qui est seul ne l'aime pas
Regardez la vie passer
Vivre une illusion
Qui trompe la pensée
En essayant de cacher le sentiment de vide
Lors de l'utilisation de sa propre main
Pour un peu d'encouragement

7.8.15

Da última vez que tentamos falar



Nossa conversa
Não pode terminar

Pois insistias
Em argumentar

Que deveríamos (um do outro)
Descansar

Que o dia
Não tardaria a chegar

Que haveria
Muito que se trabalhar

Que a vida
Precisava continuar

E foi assim que vimos
A luz se apagar

Desde então
Ficou fácil perceber

Que dormir
Foi só o que soubemos fazer

E que estamos aumentando
O risco de esquecer (de vez)

Os caminhos
Que precisamos conhecer

Para que o abajour
Volte a acender

6.8.15

Diabólicos sussurros



Comprei sua alma
Comprei

Considerou-a falida
Aproveitei

Invadi seu corpo
Me apropriei

Percebi que valia
Paguei bem

Nada muda
Me deleitei

Tudo muda
Eu bem que avisei

Você fica
Determinei

Agora quem manda sou eu
Esta é a nova lei

5.8.15

Even if we are to war



When night falls
I come back to find you
Requiring peace

Because without you I can't be
And being alone
It's worse than the pain
Any torture can cause

4.8.15

Não permitirei



Que permaneça no quarto
Um criado que seja apenas mudo
Deve também ser cego e surdo

Não quero cúmplices em certos assuntos
Merecemos respeito
À privacidade de nosso mundo

3.8.15

Quando estou só



Demoro para amanhecer
O sol está mais pesado ao se levantar
E o dia tem trabalho dobrado para me convencer
Que ainda vale a pena continuar

31.7.15

Je me suis réveillé à la vie



Juste au moment où
Je vis qu'il avait pas
Personne d'autre
Pour vivre ensemble
Le reste de mes jours

30.7.15

Pessoas



Podem de certa forma ser entendidas
Por seus comportamentos e funções
Também conhecendo suas trajetórias
Resultantes vetoriais e geometrias

Exitem as retas
São flechas
Gostam de se projetarem para frente
Movimentam-se sempre na mesma direção
Mantém previsibilidade
Coerência e razão
Guardam uma ligação contínua com o passado
Sentem-se seguras com este lastro
Ficam mais tranquilas
Quando olham para trás e vêem o próprio rabo

Também existem as circulares
Que não conseguem se desvincular
Não avançam
Podem até se afastar
Mas estão sempre ao alcance do olhar
São monótonas
São rodas
Voltam regularmente para o mesmo lugar
Nunca se cansam de recomeçar

A mistura de ambas pode gerar objetos diversos
Como bumerangues e parafusos
São personalidades complexas
E muito mais curiosas
Os bumerangues realmente aventuram-se pelo mundo
Mas cedo ou tarde retornam ao seu núcleo
Os parafusos são mais restritos
Podem ir para dentro ou para fora
Mais superficiais ou mais profundos
Mas dependem sempre de ferramentas
E de quem as labora

Todos os dias reconheço
Outras personalidades puras e misturas
Elas são muitas
E só como exemplos:
Calços
Alavancas
Rochedos
Pastéis de vento
Liquidificador
Pontes
Mochilas
Metralhadoras
Temperos
...

29.7.15

Nestes tempos



Em que predominam atitudes e o olhar blasé
Em que a tecnologia é quem dá o tom e o andamento

Em que tudo parece relativo e efêmero
O sujeito vai ficando cada dia mais embotado e alheio

E enquanto as mentes não estão totalmente destruídas
E ainda podem ser resgatadas para a vida

A poesia é a forma de expressão
Que tem algum poder de mudar a situação

Linguagem curta e adensada
Que tanto significa, valorizando a língua

Pois quando desaparece o texto, o leitor
A crítica, o questionamento

Para garantir um pensamento menos raso
Um viver mais intenso

Resta uma esperança:
Versos para salvar um mundo que agoniza!

Manter ativo o que nos faz únicos
Oferecer argumentos

Ao processador de emoções
Que carregamos em algum lugar aqui dentro

Criar dados dignos
Arquivos com significado

Para que nossos filhos
Recebam algo que lhes seja útil como legado

Ferramentas e insumos que contribuam
Para a construção de um sentir mais libertário

28.7.15

Vous insistez



Je commence à vous mépriser
Or turning dans sentiment le plus dégoûtant

Je travaille tout le temps
Pour éviter le trésor tour boues

Et quelle catastrophe jusqu'à présent impossible
Matérialise et devient irréversible

27.7.15

Madrugada fria



Céu limpo de um azul profundo
E ainda escuro
O amanhecer chega devagar
Cheio de nuances

Cores divergentes e encantamentos
Para onde quer que o olhar se lance

Pintura executada por alguém
Que na certa entende bem daquilo que faz
E o faz direito

Paro num semáforo
E uma mancha escura se aproxima

Uma figura humana
Muito suja e maltrapilha
Cabelos espetados
Rosto transfigurado
Um paninho puído amarrado no punho

É o craqueiro daquela esquina
Lembrei já tê-lo visto outras vezes
Sem repará-lo direito
Nesta mesma avenida

Chega junto ao carro
Pegunta se pode limpar os vidros
Fala de forma truncada
E pede uns trocados

Vão ficar ainda mais sujos
Pensei
Pegou-me desprevenido
Concordei

Faz tudo muito rápido
Tem o tempo como adversário
Está em nítida abstinência
Está desesperado

Completa o serviço
Separo algumas moedas
Dou a entender que já é suficiente
E de dentro sinalizo para que receba

Apanha o bônus com um sorriso tenso
Mas surpreendentemente largo
E me estende aquela sua mão imunda
Que inexorável
Através janela me invadia

Deixou-me sem jeito
E sem pensar aceitei o cumprimento

Senti força
Sinceridade e agradecimento
Naquele gesto ordinário
Naquela simples formalidade

O farol se abre
Sigo em frente de volta ao roteiro

Com a brisa fria no rosto
O azul agora muito claro
E um sol gigantesco
Já redontamente ocupando o retrovisor direito

24.7.15

I gave you



What no one else
Can give you
A love made for you

As you are
Not what they want to be
Or appears to be

23.7.15

Foi tão custoso para a seleção natural



Aperfeiçoar nossas mãos
Deixá-las livres, tirando-as do chão

Foi tão vantajoso para a espécie
Fazer com que deixassem de ser só sustentação

Isso nos fez crescer em conhecimento, artes
Ofícios e experimentação

Mas numa questão de segundos
Marcados no relógio da evolução

O celular passou a ser o foco absoluto
Ocupou-as demais e ainda nos encurtou a visão

E assim as mãos que antes nos descortinavam o concreto
Eram ponte para o mundo da abstração

Agora são ferramentas inúteis de um universo acabado
Frente ao qual somos impotentes, não mais que ilusão

Ficamos piores que um urubu sem asas
Dependentes de tudo em nome de uma pseudoconexão

22.7.15

Queria que um dia



Todos os pensamentos
Que se debatem em minha cabeça
Quando encontrassem uma saída
Só se atrevessem a ganhar o mundo
Já com a metamorfose completada
Fortes asas
E transformados em poesia

21.7.15

Tem dias



Principalmente quando faz frio
E chove

Que olhando o cinza
Algo aqui dentro se move

O pensamento não para
Uma tristeza se instala

E não é possível pensar em outra coisa
Que possa deixar a cabeça menos doida

Me ocupa a palavra
Assume o controle da fala

Me faz repetir em silêncio
Uma só frase, um lamento

Uma ladainha
Que não varia

Uma musica chiclete
Que como um tirano me persegue

Me mantém escravo, agindo sem piedade
E se diverte com o tamanho da sua maldade

20.7.15

Não aceitarei mais o seu amor



Se não puder usá-lo
Como bem entender
Abusar de seus predicados
Fazendo jus a tudo que mereço ter

Os anos passados
Me fizeram ver
Que pouco comprometimento
Não satisfaz mais
A mim e nem a você

Fica muito aquém do aceitável
E amor não é algo descartável
Se é pra valer
Tem que estar inteiro
Sujeito à plenitude do querer