30.1.19
No fim de todo santo dia
Um bando de maritacas
Em disparada
Maritacam alegres
Numa linguagem cifrada
Que é só sua
A meia altura
No caminho de volta pra casa
Passam-me frente aos olhos
Sem se darem conta
De como são observadas
É uma ruidosa saga diária
Que desperta minha curiosidade
Sobre que assuntos são tratados
Nesta inesgotável conversa entre comadres
28.1.19
As vezes
Tudo parece tão difícil
Mas aí, uma voz chega
E simplesmente te diz:
- "Suba mais um pouco na montanha
E tente chegar ao pico"
E eis que ao ultrapassares
O tapete de nuvens
O céu te aparecerá
Com seu azul límpido
Inspirador de tão lindo
E o sol
Ah, o sol
Ele te ofuscará os olhos
Até o ponto de doer
De tanto brilho
24.1.19
Se passar muito tempo
E você voltar
Ainda me querendo
Querendo que meu corpo
Visite o seu corpo
Como sempre foi do seu gosto
Antes de se entregar
Olhe bem no meu rosto
E mesmo que me veja
Só o faça se tiver certeza
De que ainda sou eu no meu lugar
22.1.19
Acumula-se tempo
Rareiam os frutos
Atrofiam vasos e raízes
Galhos se perdem
O tronco enfraquece
E a enormidade física
Anteriormente vantajosa
Para o sujeito
Torna-se um peso
É neste estágio
Que para aquele ser
Antes altivo e determinado
O apoio torna-se indispensável
Pois sucumbir aos ventos e tempestades
Apenas por recusar ajuda
Causaria tanto mal para si
Quando para quem estiver nas proximidades
18.1.19
J'appelle parce que j'ai besoin
Por me calmer
Parce que j'ai besoin d'un mot d'affection
J'appelle pour répondre aux désirs
D'un coeur blessé
17.1.19
Você é aquela
Que vê beleza até num poema vulgar
Que chora com qualquer canção
Que vive pelos cantos a suspirar
Que acredita já ter reservado
Um grande amor
E só lhe falta encontrar
16.1.19
Cinco e meia
Acordo assustado
Corpo molhado
Uma tristeza imensa
Coração apertado
No infinito da cama
Me sinto pequeno
Fico perdido
E temo por estar sozinho
15.1.19
Por que te decepcioso?
Será que é porque não sou mais
Aquele de tempos atrás?
Mas isto não é defeito
Independeu da vontade
Neste mundo
Até os mortos mudam
Querer que alguém
Corresponda exatamente
Ao que trazes na memória
É ilusão
O único jeito
Que poderia deixar o que se vê
Ficar igual
Ao que está no pensamento
É se fosse possível
Paralisar o tempo
Mas a tua decepção
Deve estar acontecendo
Não pelo fato de ter eu ter mudado
E sim pelo que me tornei
Algo que não atende mais
À tua fantasia
Mas o que me importa hoje de fato
É que agora eu me sinto melhor
Mais centrado
Feliz e realizado
14.1.19
A solidão
Não é uma estranha
Em minha vida
Vai, Querida
Vai viver
O que precisas
Muitas vieram
Todas se foram
Motivos para partir
Não faltaram
E ainda que o amor
Sobrevivesse
Não serias tu
A exceção
Neste jogo de dados
Agora vai
Vai viver
A tua vida
Mas deixe a porta aberta
Para que possa entrar
Uma outra visita
11.1.19
Sabe-se que o amor está para acabar
Quando o prazer é pouco
E a dor segue pelo caminho oposto
Quando o tédio domina
E o silêncio passa a fazer parte da rotina
Quando esgotam-se os planos
E só se enxergam os danos
Quando quase tudo é lembrança
E não se usa mais a palavra esperança
Quando predomina a tristeza
E sorrir passa a ser um ato de destreza
Quando os sonhos são abandonados
E parecem maiores os obstáculos
Quando falta envolvimento
E a vida se afoga no medo
Quando muitos são os argumentos
E cada um passa a colecionar os seus segredos
Quando há pouca cor
E tudo desbota perdendo também o sabor
Quando diminuem os cuidados
E os incidentes são justificados pelo acaso
Todos notam quando os sinais são evidentes
Mas os amantes geralmente são negligentes
Deixam que a inércia assuma o leme
E a reversão está apenas nas mãos de quem sente
Para isso primeiro é preciso admitir
E nem sempre é fácil reagir
Mas enquanto houver algum afeto
Os amantes não devem abdicar do mesmo teto
E se ainda arder alguma chama
Precisam continuar compartilhando a cama
Pois o contrário seria a consagração do fim
E a aceitação de que não há mais trabalho neste jardim
10.1.19
Fundamentos
Nos dão a base
Argumentos
Orientam nossas vidas
Mas precisamos ficar atentos
Não aceitar a cegueira dos extremos
Mantendo a crítica
Deixar-nos escravizar por preconceitos
Nos torna fundamentalistas
Sujeitos a repetir os erros dos fascistas
9.1.19
Amor que definha
E não termina
Desorientado
Desvitaliza
Fica desestruturado
Deglutido
Segue amorfo
Empastado
E por mais que seja absorvido
Esvaziado
E descaracterizado
Nunca estará esgotado
É amor de eterno vai e vem
Cada vez mais irreconhecível
Espectro do que foi em tempos idos
É chamado de amor ruminado
8.1.19
C'est très facile de mentir
Difficile est d'accepter
Que la mensonge
Parfois c'est
La sortie la plus digne
À éviter
Quelqu'un
Finir par être blessé
7.1.19
Quando o retrocesso
Toma as rédeas
E dita a conduta a ser seguida
Qualquer ousadia em se escapar da canga
Ou olhar fora da bitola
É considerada subversão
Uma ameaça aos valores
E à ordem estabelecida
Por isso precisa ser reprimida
Sem misericórdia.
Por ignorância querem nos classificar
Por medo querem nos enquadrar
Numa paleta de cores restrita
Nos fazer sentar passivamente
Num par de cadeiras iguaiszinhas
Um de frente pro outro
E ficar ali calados aguardando ordens
Tendo que pedir autorização para falar
Aceitando tudo de forma polida
E parecendo concordar
Sem exceção.
Mas não devemos nos sujeitar
A qualquer restrição
Exigimos respeito às diferenças
E para isso será preciso restaurar
A escada da luz e da liberdade
Numa corrente de união
Usá-la para saltar o muro
Do ódio
Do preconceito
E da discriminação
Ganhar o mundo
Fazendo valer nossos direitos
Exigindo viver a vida
Como a de qualquer cidadão
Seguindo sua natureza íntima
Com coerência e amor
Sem vergonha do que se é
E rejeitando com todo o ímpeto
As forças do obscurantismo
Sem exceção.
4.1.19
Por um tempo
É, por um tempo
Nunca se sabe ao certo por quanto tempo
Pode parecer até que tudo foi sufocado
Que tudo está sob controle
Que tudo é para sempre
Que nada mais será diferente
Mas a verdade é que no universo
Nada pode ser considerado eterno
Monolítico, imutável
Indestrutível, inexpugnável
Nada está definido
Nada está acabado
Repare que aos poucos, bem aos poucos
Surgem sinais de desgastes, fissuras no processo
E onde antes só se viam soberba e insanidade
Truculência e inflexibilidade
Acontece uma sequência sutil de fatos
Escorregam os controles e as coisas escapam
Não conseguem mais ficar sujeitas
Apenas às leis humanas e tacanhas
Voltam a valer o bom senso
E a inteligência espontânea da natureza
Voltam a prevalecer os desígnios da expansão
E da contínua mudança
21.12.18
Na maior parte das vezes
Ninguém gosta de abandonar o seu lugar
O sujeito sai contra a vontade
Por exemplo do campo para a cidade
Não para enxergar outra realidade
Mas porque lá onde nasceu
E se reconhece
Esgotaram-se as possibilidades
Vencido pela fome
Pela guerra
Pela ganância
É convencido a migrar
Este drama
Disseminado pelo mundo
Fere fundo
Destrói vidas
Arruína culturas
Fratura comunidades
Compromete identidades
Não é recente
É vivido desde sempre
Desde que que existe a humanidade
20.12.18
19.12.18
Onde um dia
Existiu o amor
E nada mais pode ser encontrado
Alguns seres de sensibilidade rara
E instintos apurados
Conseguem perceber notas sutis
Sinais esparsos
Vestígios voláteis
Do que ficou no passado
Verificam que em algum lugar resiste
Ainda que esteja soterrado
Pois quando o sentimento é de verdade
Não tem como morrer sufocado
Sempre deixará saudade
Uma forma de existir é ser lembrado
18.12.18
17.12.18
Hoje
A exceção está se tornando a regra
O anormal virando o normal
O mundo é quase todo virtual
Mas ainda há tempo
De evitar o aprofundamento deste mal
Resgatando um maior contato com o mundo real
Reconectando o homem com a natureza
Para que ele não se aliene de vez
Para que ele não adoeça
Para que ele não enlouqueça
Para salvaguardar a sua essência
Criando limites para a inteligência artificial
Sob o risco de que um dia
A humanidade seja definitivamente escravizada
Ou desapareça
14.12.18
In relation to our love
It is difficult to define
If we are
At the end
From the beginning
Or at the beginning
Of the end
13.12.18
Não tem jeito
Passa o tempo
Passo por tantas outras, mais jovens
Com promessas de novos horizontes
Outros encantamentos
Mas retorno sempre pra ti, mala querida
Minha boa e velha amiga
Companheira fiel de longas jornadas
Resistente impávidas às chuvas e trovoadas
A última encerrou ontem
Sua curta empreitada
Quebrou-lhe a alça
Deixou-me na mão
Perdeu a função
Quedou-se em casa
Reduzida a uma caixa vazia
Triste e desamparada
Não deixará saudades
Não tivemos tempo de criar intimidades
Mas maleta frágil, esteja tranquila
Não ficarás oca assim por toda a vida
Já pensei para ti uma outra serventia
Abrigarás nossas fotos antigas
Servirás como o fiel guardiã
De nossas memórias mais queridas
12.12.18
Se foi pra valer
Tudo o que aconteceu
Independente do tempo ou lugar
E se alguma coisa ficou
Que ainda valha a pena cultivar
Então desce e abra a porta
Para que eu possa entrar
11.12.18
O que sinto por ti
É diferente do que sentes
É maior
É mais intenso
E temo que seja assim para sempre
E como não o sentes
Em igual medida
Sei que não me entendes
Pois só ama quem sente
Aceito até que não me entendas
E não há como ser diferente
Mas se ao menos me acreditas
Isto me deixaria bem menos descontente
10.12.18
Hoje no castelo
Quem da as cartas
É o obscurantismo e o retrocesso
O berço esplêndido está repleto
De parasitas, oportunistas e mascarados
O templo foi devassado e recebe
Toda a sorte de mercadores e vendilhões
E sem que ninguém os expulse à chotadas
Saqueiam livremente o que não lhes pertence
Nos domínios do reino
A porção do povo que não foi enfeitiçada
Sente-se perdida
E está paralisada pelo medo
O demiurgo tosco e descontrolado
Sem estatura para portar cetro e coroa
Não consegue perceber
A dimensão do embaraço que um rei precisa resolver
7.12.18
Me desprezas
Como se eu não mais existisse em tua vida
Não quero chamar tua atenção
Mas se quisesse
Facilmente conseguiria
Me bastaria
Publicar tuas fotos
Te denunciar pros amigos
Te ofender de forma cruel e fria
Abrir nossos e-mails
Espalhar nossos segredos
Gritar embaixo da tua janela
Rasgar a roupa e ficar nu na portaria
Atravessar fora da faixa
No exato instante
Em que aceleras e passas
Quando pela manhã vais à padaria
Mas loucura nenhuma me adiantaria
Mesmo que entendesses o meu desespero
Me perdoasses e me aceitasses de volta
Prometendo devolver a minha alegria
Eu não conseguiria retornar
Pois não teria como viver e sofrer
Um novo aborto amoroso
Isto definitivamente eu não aguentaria
6.12.18
Nous étion ce que nous étions
Nous sommes ce que nous sommes
Ou ce que nous pourrions être
Après tout, vivre
Est d'avoir à choisir
Mais ce que nous sommes
Nous sommes pour de vrai
Et ce que nous étions
Nous ne reviendrons jamais
5.12.18
4.12.18
Mesmo na manhã mais cinzenta e fria
É possível encontrar uma corzinha
Deixar-se iluminar pelos olhos
E esforçar-se para aquecer um pouco o dia
3.12.18
Cicatrizes são inúteis
Quando a mão
Que empunha a lâmina
De um dado sentimento
Ainda não foi amputada
Porque súbito
A qualquer momento
Pode vir
Uma outra navalhada
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