16.5.18
Chovem palavras
Nas goteiras do meu pensamento
Recolha-as em panelas, canecas, baldes
E quando a tempestade passa
Espero que se acalmem, sedimentem
E só aí corro pra ver o que caiu lá dentro
Com a mão mesmo
Vou separando uma a uma
E as empilho
Fazendo arranjos
Que elas mesmas vão me ditando
Ideias confusas vão ficando claras
Alguns conjuntos começam
A ter novos coloridos
E é assim que acontece pra mim
A magia da multiplicação dos sentidos
É incrível pensar
Que mesmo antes da chuva
Tudo já estava lá
E que me coube apenas a deliciosa tarefa
De encontrar para cada uma um lugar
15.5.18
Para que o amor que não deu certo
Não se arraste por tempo indeterminado
Deve-se evitar o contato
E deixar de alimentá-lo
14.5.18
Mas afinal
O que as palavras precisam ter
Para ser poesia?
Para mim
Só é poesia aquilo que te diz algo
Que te contamina
Não é poesia
Uma pilha ou apanhado
De palavras vazias
Mesmo que estejam arrumadas
De forma bem bonitinha
11.5.18
Amar
Aquilo que definitivamente está perdido
É sofrer sem sentido
Amar
O que nunca mais estará ao alcance da mão
É recusar-se de forma absurda a aceitar o não
Amar
Alguém que te vê como questão encerrada
É condenar a via a uma direção errada
10.5.18
Só não posso me conformar
É que tenhas alguém
Pra te consolar
Naqueles momentos de dor
Quando contigo
Não consigo estar
9.5.18
Parfois
Il n'y a pas de mots
Qui expriment mieux
Un sentiment
Que un regard
Directament lancé
Pour la personne
Qui porte une douleur
8.5.18
A luta interior é constante
Ataque e defesa
Ocorrem a todo instante
Somos bússula de nós mesmos
E a espada é nossa agulha
Tutor que nos faz ver
O melhor e o pior do nosso ser
A concretização da metáfora
Que nos orienta e inspira
Nos ajuda a ter serenidade
No campo de batalha da vida
O Dojo nos dá guarida
Molda o nosso corpo e pensamento
Vivenciamos a harmonia
Melhorando técnica e comportamento
Aprendemos assim a usar para o bem
A nossa energia
Nossas ferramentas são o respeito
A disciplina e o tempo
Temos como base o Budo
E é assim que nasce em nós o Aikido
4.5.18
Querida
Dormes o sono pesado
Dos que deram o sofrimento por encerrado
Te deixo tranquila
Restaurando as forças
E cuidando para que nada te perturbe
Pois quando acordares
Um trabalho hercúleo te espera
Será longa e complexa
Tua volta à própria vida
A mesma vida que deixaste
Enquanto te dominava a paralisia
Sei bem como no teu íntimo lutavas
E sistematicamente eras derrotada
Mas agora considere vencida a catatonia
E eu me sinto feliz de ter te ajudade
A superar a ti mesma
Tua maior inimiga
3.5.18
A humanidade está doente
As pessoas estão doentes
Há uma epidemia de solidão
De egoísmo e narcisismo
Que pode nos levar à extinção
Tudo sob o risco de ser destruído
A tecnologia não tem nos ajudado muito nisso
E talvez até justifique
A ocorrência de tanto suicídio
Respeitando a autonomia
Direito sagrado do indivíduo
Mas ao mesmo tempo
Não podendo ficar indiferente a este limbo
Deixo aqui registrada a minha indignação
Cedendo meus ouvidos e ombro amigo
Para chorarmos juntos se for preciso
Mesmo que nada mais seja possível:
"Meu querido
Acabar pendente
Numa corda
Pode não ser a melhor
Ou a única forma
De por fim
Às Questões pendentes"
2.5.18
Hoje
O Sol resolveu se atrasar
A lua agradeceu e lhe disse:
- Não precisa se apressar
Meu amor ainda está aqui
E quero que demore muito pra partir
27.4.18
Nosso amor
Foi para mim
Uma verdade profunda
Um resgate
Um processo de cura
De inquestionável valia
Que fez renascer meus sentidos
Me devolvendo para a vida
Só lamento que pra você
Pelo que hoje posso entender
Esse amor não foi mais que uma aventura
Uma fantasia
Que com o tempo
Foi se tornando oca
E agora está completamente vazia
26.4.18
25.4.18
Não me atrevo a dormir
Por muito tempo
Para não correr o risco
De te esquecer
Deixando de sentir
Nas pontas dos dedos
Tudo o que tivemos
Hoje
O que mais preciso
É lembrar
E reconstruir
Os detalhes de nós dois
Em cada momento
Só assim
Não ficarei ainda mais só
Do que já estou
Poderei descansar
E conseguirei
Seguir vivendo
24.4.18
Uma cena
Que não me abandonará jamais
Como esquecer
Aquele último olhar?
Que na despedida
Já me dizia:
- Até nunca mais!
23.4.18
Tuas portas
Há tanto tempo fechadas
Já estão com os ferrolhos emperrados
Mas há um movimento lá dentro
E isso é inegável
Ele é crescente
Uma ebulição latente
E a estrutura não será capaz
De segurar tantos sentimentos aprisionados
São incontroláveis e sua força descomunal
A qualquer momento pode explodir os telhados
20.4.18
Para curarse de un amor fracasado
Sólo con un nuevo amor recién conquistado
Si no, en la soledad, el amante siempre se volverá
Para ese amor que quedó mal resuelto en el pasado
19.4.18
Só lamento o que não vivemos
A conclusão a que chego
É que você não me amou
Pois quem ama se entrega
E você não se entregou
Nunca declarou o seu amor
E só agora compreendo
Mas por outro lado
Se não se entregou
Apesar dos apelos
Mesmo havendo amor
Morreremos
Sem ter sido plenos
Não teremos feito jus ao humano que fomos
E regredidos voltaremos
Você no máximo como um anelídeo
E eu como um psitacídeo cantando no poleiro
18.4.18
Em algumas relações
A solidão é tanta
Que há o suficiente
Para encher muitas vezes
A taça de ambos
E ainda sobra pra depois
17.4.18
Não consigo entender
Por que bates
À porta do meu ser
Com tanta insistência
Sem falhar nenhum só dia
Se sempre que abro
Te recusas a entrar
Ainda que eu reforce
O quanto és bem-vinda
16.4.18
Toute histoire
Il devient en fait plus convaincant
Quand qui compte
Le mettre
Quelque chose de lui-même
Bien que subtilement
13.4.18
Sugiro que estejas preparada
E não adianta trancar todas as tuas portas
Pois quando decido amar
Dou um jeito de entrar
Mesmo sem ser convidado
Escalo os muros dos vizinhos
Ando pelos telhados
Desço por chaminés
Encontro janelas semicerradas
Sótãos com claraboias emperradas
Porões com respiros mal fechados
Meu amor não tem como ser barrado
Ele se insinua
Escorre pelos pisos
Se infiltra nas fissuras
E em pouco tempo
Teu território de dentro
Estará totalmente dominado
12.4.18
O lugar da poesia
Não é nos cadernos quase cheios
Nos livros amarelados
No verso das fotografias de outros tempos
Nos cartões postais de tantas idas e vindas
Nas folhas esquecidas nas gavetas
O lugar da poesia
É no sangue que ferve
Nas bocas que não se fecham
No suor que escorre na pele
Nos peitos arfantes
Nas orelhas atentas
O lugar da poesia
É na vida inteira
No que há de importante e na besteira
No interior das cabeças
No que o ser tem de nobreza
No que nos faz humanos e dá sentido à existência
11.4.18
Sentir saudade pra quê?
Só pra reacender o risco
De novamente eu me perder
Já sabendo que vou sofrer?
Saudade é uma forma de ter
Mas também pode ser
A confirmação do perder
Lamento lhe dizer
Mas depois de muito pensar
Concluí que fico melhor se não vejo você
10.4.18
O tempo é ao mesmo tempo
Criador e assassino.
Na medida em que passa, mata a paixão
Para que nasça um amor mais denso e até maciço.
É preciso saber que são esses os sentimentos
Que dão sentido à vida e por isso devem ser vividos.
Mas também lembrar que ambos carregam em si ganhos e prejuízos.
Quem se apega demais à fantasia e ao fogo da paixão
Talvez sinta falta de emoção e não se acostume
Com a singeleza e a serenidade de um amor mais definido.
9.4.18
Sabe por que foi tão difícil
Terminarmos o relacionamento?
É porque não tivemos tempo
De encerrar a fase do encantamento
6.4.18
Quando a questão é sentimento
Faz tempo
Que o tempo perdeu o sentido pra mim
E não me diz mais respeito
5.4.18
Nem todas as cobranças devem ser pagas
Nem todas são justas
São dívidas
Lícitas
Há cobranças que são extorsivas
Essas devem ser ignoradas
E até mesmo esquecidas
4.4.18
Me perdoe o silêncio
Mas é quase inacreditável estar aqui
Depois de tanto tempo
Por isso gasto o puco que temos
Pra ficar apenas olhando pra ti
Isso me acalma aqui dentro
E é suficiente pra mim
3.4.18
Saberes rasos
Que me chegam em cápsulas
Filtros em pilulas
Aceites em comprimidos
Cenários borrados em drágeas
Emplastros hipoestésicos
Sprays de veneno
Gotas de contentamento
Catatonia injetada
Ajustam o parafusos de minha cabeça
Balizando o meu pensar
Interferindo no meu olhar
Com tudo isso, ainda serei eu a enxergar?
2.4.18
O rangido noturno do assoalho
Firme e compassado
Tão conhecido pelos ouvidos
Ecoa pela casa
E traz paz ao coração do filho
São os passos do pai
Na direção do quarto
Ele chega tarde do serviço
Mas não é o andar de um homem cansado
Mas de alguém determinado
Que sabe do seu dever
E sempre o cumpriu com prazer
Sem nunca ter reclamado
Ele chega junto ao leito do rebento
Arruma-lhe as cobertas
Dá-lhe um beijo na testa
E contempla na penumbra aquele rosto delicado
Um serzinho tão inocente
Que não conseguiu esperá-lo acordado
Tem ainda uma vida inteira pela frente
É um diamante bruto a ser lapídado
Sai do aposento silenciosamente
E se recolhe para o merecido repouso
Amanhã acordará antes que o seu pimpolho
Pois não poderá chegar atrasado
Mais uma vez não o acompanhará à escola
Não lhe contará histórias
Não torcerá por ele no jogo de bola
Ou jantarão juntos já de banho tomado
Retornará novamente do trabalho
Tão tarde quanto necessário
E encontrará em casa
O mesmo cenário
Não verá seu moleque crescer
Teme não conseguir estreitar a distância
Que entre eles poderá se estabelecer
Logo logo seu menino será homem formado
E ele já pensa baseado na sua vivência
Em como não repetir a história de afastamento forçado
Que poderá ocorrer quando um neto vier
Engatinhando naquele mesmo assoalho
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