16.2.18
Agora
O que me resta fazer
É tentar tornar-me um ser
Mais pragmático e objetivo
Desconstruindo os resíduos de romantismo
Que ainda cultivo com relação a ti
Tentando assim recuperar a paz
Que não tinha até então percebido
Deixou-me quando te conheci
E seguiu contigo
No dia em que te perdi
15.2.18
No dia em que te perdi
Algo se calou dentro de mim
E agora o que eu mais temo
É que esse silêncio
Não me permita o esquecimento
E nunca mais tenha fim
14.2.18
Num súbito descuido
Entre lágrimas
Um fungar profundo
Os olhos embaçados
E um lapso no pensamento
O branco da cebola
É tingido de vermelho
Um corte profundo
Quase me encurta o dedo
Por um momento
Senti um alívio no peito
Ao ter minha dor de amor
Substituída pela do ferimento
Mas assim que as entendi diferentes
Coloquei sobre o machucado o pedaço pendurado
Enrolei a mão num guardanapo
E saí rápido buscando atendimento
Alguns pontos no indicador e um curativo apertado
Foi esse o resultado
Mas no coração não sessou o sofrimento
E o sangue ainda jorra sem poder ser estancado
9.2.18
Pode acreditar
A dor ainda está lá
Mas o tempo consegue a proeza
De anestesiar os sentimentos daquele que sofre
Fazendo-o se acostumar
E quanto ao esquecimento
Ah, isso é um outro departamento
No qual o tempo
Nem sempre tem autorização para entrar
8.2.18
O grito que ouço aqui dentro
Só quem já viu
Um porco morrer
Entenderá o que eu digo
Sabendo bem o que é sofrimento
Grito de desespero
De alguém que sabe o que está acontecendo
E que mesmo contra a sua vontade
É chegado o seu momento
7.2.18
O amor era o mesmo
Mas com o passar do tempo
Os ciumes e as cobranças foram aparecendo
E aos poucos outras aberrações se somaram
Soterrando todo o sentimento
Faltava carinho no toque
Leveza nas palavras
E não se via mais brilho no olhar
Ainda que tudo continuasse verdadeiro
A cruz que levavam ficou pesada demais
Consumindo-lhes as forças
Até não conseguirem mais carregar
E esgotarem-se os argumentos
Tiveram que desistir de algo raro
Mas que não havia mais como salvar
E hoje ainda juntos vivem imersos
Num insuportável silêncio
6.2.18
A saudade do poema
Só era pra ser verdadeira
Enquanto saudade no poema
A dor do poema só era pra doer
Enquanto doesse no poema
O amor do poema era pra ter outra cor, aroma e sabor
Ter um outro calor que só ardesse no poema
Fechar o livro e apagar o abajour
Às vezes não não nos livram do poema
5.2.18
Preciso de alguém
Que se importe comigo
Para que quando a razão me faltar
Vá me buscar onde eu estiver
Me faça lembrar de quem sou
E me convença a voltar
E que quando eu chegar
Não me pergunte nada
Mas trate das feridas
Que ao longo do caminho não pude evitar
E que sozinho não conseguiria cuidar
2.2.18
Agora
Estamos num outro momento
Diferente de tudo que até aqui vivemos
E não é um momento de esquecer
Ou deixar de sentir
Como podes ver
É um momento de encarar espelhos
Somos dois solitários
Desviando dos próprios reflexos
Vagando perdidos
Cada um no seu quarto
Carentes de abraço
Cheios de desejos
Tendo que suportar tudo
Ouvindo apenas os próprios pensamentos
Quantas vezes nos advertimos
De que estávamos sob risco
De que se nada fosse feito
Caminharíamos exatamente para o que hoje temos
Não sonhamos com isso
Erramos em ser tão passivos
Permitimos que aos poucos
Entre nós fosse erguida a muralha do silêncio
Apagamos as luzes antes do tempo
E fomos sugados pelo fosso do isolamento
Não era para ser assim
Perdemos a última chance de nos entendermos
1.2.18
Não são só escolhas que temos
Também há contingências
Determinadas por nossos envolvimentos
Neste caso precisamos aceitá-las
Ou do contrário não há como seguir vivendo
Algumas são escolhas, sim
E quando se concretizam nos sentimos plenos
Mas abortam planos
Quando são importantes e não as obtemos
Frustram pensamentos
Comprometem o encantamento
Nos fazem parar à janela acompanhando nas calçadas
O que mais parece um rebanho sem discernimento
Enquanto isso as gotas de chuva
Se desfazem no vidro lavando sentimentos
31.1.18
Esquecer não é uma forma de negar a existência
É ter que perder aquilo
Que não coube onde estava hospedado
É aceitar o equívoco de se manter algo
Que sabidamente estava em lugar errado
É precisar ceder acomodações dignas
Para o que chega todo dia exigindo espaço
É fazer voltar à biblioteca do mundo
Um livro com prazo de devolução expirado
Há o esquecer adoentado
Que precisou de tratamento e quarentena para ser reabilitado
O esquecer que não mudou de lado
Mas lá dentro mesmo foi sepultado
O esquecer que hiberna por longo tempo
Para um dia quem sabe acordar sedento e esfomeado
O esquecer que perdeu-se no mundo
E que depois volta batendo à porta arrependido e necessitado
O esquecer querreiro
Que lutou muito antes de ser exonerado
Debateu-se e ferido gravemente
Espalhou por todos os lados o sangue de seu pulso cortado
Esquecer é uma necessidade na sobrevivência
De quem ama ou é amado e também na de quem não ama ou não é amado
Deixando dentro apenas o que importa
Mantido engatilhado e em algum momento apto para ser usado
Como decidir o que sai ou o que fica?
A alma com seus mistérios fazem com que isso não nos seja claro
30.1.18
É preciso que saibas
Que respeito para mim
É um princípio
Que jamais avançarei
Além do que me for permitido
Mesmo que tudo que tenhas a oferecer
Seja esse imenso silêncio
Que entre nós foi construído
29.1.18
Não há como recuperar
O tempo perdido
Enquanto se viveu
Sob o jugo
Do servilismo
Mas enfrentando a verdade
Nunca será tarde
Para conquistar a liberdade
E assumir seu próprio destino
24.1.18
Cherchez moi
Seulement
Si tu as vraiment besoin
Mais s'il te plaît
Ne prends pas trop de temps
Il n'y a aucun moyen de savoir
Quand sera ma fin
23.1.18
22.1.18
Não devias vir
Este não é mais o teu lugar
Quando dei por mim
Já estavas aqui
Não foi possível evitar
Quando a vontade supera a razão
Os pés se descolam do chão
E com uma venda nos olhos
O juízo se desfaz
O amante
Voa
Confiando no instinto
Acreditando não precisar enxergar
Não admite que palpável
Só o amor construído
Que paixão é ilusão finita
E não tem como durar
Que só existe enquanto arrepia
Que não resiste às tempestades cíclicas
Não garantindo cadeira cativa
No coração em que pensa morar
19.1.18
18.1.18
Não deixe que em ti
A tristeza dure tanto tempo
E arrisque ser vista
Como algo normal
Que mascare o sofrimento
E passe a ser entendida
Como constitucional
17.1.18
Tropeçar em verdades
Nos força a enxergar
Coisas que às vezes
Não queremos enfrentar
E as preferimos silentes
Por isso é mais fácil
Desviar o olhar
Mudar de calçada
E seguir em frente
Arcando com o possível desgosto
De vivermos a vida
Só como um esboço
Ainda que para sempre
16.1.18
Lembra daquela menina
Aquela bem jovem
E bonitinha
Do andar de cima
Que no elevador
Chegou até a te dar bom dia?
Pois é, na última quinta
Pela manhã
Ela foi achada sobre a marquise da portaria
Nua e morta
Quase que não pode ser reconhecida
A vizinha aqui de baixo
Com sua simplória sabedoria
Resumiu o fato
De forma muito precisa:
Mais uma vítima
Que pela angústia
Foi caída
15.1.18
Algumas falhas
Do caráter humano
São evidentes
Outras nem tanto.
Podem até estar escondidas ou dormentes
Mas em algum momento
Estarão ativas e mostrarão seus dentes.
Aí seremos tomados de imenso espanto
Pois nunca nos antecipamos em achar que estarão presentes.
Ficaremos decepcionados e tristes por um tempo
Por ter que lidar com fraquezas que às vezes são até inconscientes.
Mas ao entender o imperfeito do outro amadurecemos
Corrigimos a nós mesmos e nos tornamos melhores, mais resilientes.
Nos tornamos mais seguros em não permitir que isso nos impeça
De confiar nas pessoas novamente.
12.1.18
No silêncio do quarto
Pensando sobre descaminhos
Depois de algum exagero no vinho
Percebo que hoje
Já não é tão fácil
Lembrar detalhes do teu rosto
Ou de como era o teu sorriso
O exato cheiro do teu corpo
E o gosto do teu beijo
Estão tornando-se vagas
As lembranças dos nossos carinhos
Das últimas lágrimas que derramamos
Quando nos despedimos
Nem sei mais há quanto tempo
11.1.18
Elaboras
Todos os dias
Uma lista
Com as coisas
Que não podes deixar de fazer
E os últimos itens
Logo depois de:
- 23h00 deitar para dormir
Tem sido (desde o nosso último encontro fatídico):
- 24h00 esgotar a segunda garrafa de vinho
- 01h00 chorar tudo que for preciso
- 02h00 conseguir dormir decidida a aceitar o acontecido
10.1.18
Ela não entendia o fim da relação
Tudo parecia perfeito
Tentou mergulhar de corpo e alva naquela paixão
Apostando mais do que em qualquer outro amor antigo
Mas depois de muito pensar
Admitiu que talvez tenha lhe faltado delicadeza no trato
Atenção e não economizar nos carinhos
Hoje aceita que falhou no reconhecimento
Talvez o tenha desmotivado por causa disso
E aí o encantamento acabou pois deixou de ser recíproco
Mas por que ele nunca se queixou
Se sofria percebendo que algo assim acontecia?
Ela sempre esteve aberta para conversar sobre tudo, inclusive isso
Homens não falam e ele achou mais fácil fugir do que resolver
Deixou no ar a dúvida dos reais motivos e se ainda havia algo a fazer
Sem pensar jogou no lixo a história que tinham construído
9.1.18
Agora que foste embora
Atendendo ao chamado do destino
Sei que não voltas
Pois seguiste o teu caminho
Caminho que hoje vejo
Nunca foi ao meu caminho
Nem o caminho do meio
Não correram paralelos
Nem mesmo nos anseios
Cruzaram-se por acaso
Ou artimanha do destino
Só me resta agora
Levantar âncora
Içar velas
E retomar minha jornada
Cruzando o oceano
Rumo a outro esquecimento
E como tantas vezes já fiz
Sozinho
Em silêncio
E em paz comigo mesmo
8.1.18
Flor
É recurso de meio
Produto intermediário
Fruto
É resultado
E uma nova planta
É o legado de fato esperado
5.1.18
Quem não ama
Amarga o seu viver
E tende a formar
Raízes profundas demais
Que condenam o ser
A permanecer
Sempre num mesmo lugar
E este mesmo ser
Que aos poucos vai ficando
Sem novos horizontes para contemplar
Começa a se esquecer
De como voar
É fonte de prazer
4.1.18
Roubaste de mim alguns anos de felicidade
Mas não posso acusá-la
De nenhum crime ou arbitrariedade
Assumimos os riscos dessa relação
Sempre soubemos de sua fragilidade
Durante todo o tempo em que estivemos juntos
Tentamos atender a cada uma de nossas vontades
Fomos felizes enquanto nosso amor
Estava assentado na verdade
E o que se passou depois foi inevitável
Uma previsível fatalidade
Que será superada
Mais cedo ou mais tarde
Permitindo sim momentos de desespero e dor
Mas buscando lá na frente paz e serenidade
3.1.18
Nos separamos um dia
E ficou decidido
De comum acordo
Que para sempre
A culpa seria minha
Sei que nunca me perdoaste
Não entendi bem
Mas voltaste pra mim
Sem que eu esperasse
Eu me abri novamente pra ti
Pois cheguei a acreditar que era verdade
Mas agora é tu que me abandona
Vingando-te com frieza
E sem caridade
Dando o troco covardemente
Com requintes de crueldade
Cutucaste a ferida
Pra que ela nunca sare
E continue a sangrar
Até que tudo em mim se esvaia
Nem que seja preciso a eternidade
2.1.18
Num mundo
Em que não há certezas
Aquele que as procura a todo custo
Por não admitir a dúvida
Sofre muito
Seria mais fácil reconhecer
Que a verdade não é algo absoluto
E que o que hoje nos ajuda a viver
Por nos trazer algum sentido
Amanhã poderá ser visto
Como o maior dos absurdos
E não há nada de errado nisso
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