18.1.18
Não deixe que em ti
A tristeza dure tanto tempo
E arrisque ser vista
Como algo normal
Que mascare o sofrimento
E passe a ser entendida
Como constitucional
17.1.18
Tropeçar em verdades
Nos força a enxergar
Coisas que às vezes
Não queremos enfrentar
E as preferimos silentes
Por isso é mais fácil
Desviar o olhar
Mudar de calçada
E seguir em frente
Arcando com o possível desgosto
De vivermos a vida
Só como um esboço
Ainda que para sempre
16.1.18
Lembra daquela menina
Aquela bem jovem
E bonitinha
Do andar de cima
Que no elevador
Chegou até a te dar bom dia?
Pois é, na última quinta
Pela manhã
Ela foi achada sobre a marquise da portaria
Nua e morta
Quase que não pode ser reconhecida
A vizinha aqui de baixo
Com sua simplória sabedoria
Resumiu o fato
De forma muito precisa:
Mais uma vítima
Que pela angústia
Foi caída
15.1.18
Algumas falhas
Do caráter humano
São evidentes
Outras nem tanto.
Podem até estar escondidas ou dormentes
Mas em algum momento
Estarão ativas e mostrarão seus dentes.
Aí seremos tomados de imenso espanto
Pois nunca nos antecipamos em achar que estarão presentes.
Ficaremos decepcionados e tristes por um tempo
Por ter que lidar com fraquezas que às vezes são até inconscientes.
Mas ao entender o imperfeito do outro amadurecemos
Corrigimos a nós mesmos e nos tornamos melhores, mais resilientes.
Nos tornamos mais seguros em não permitir que isso nos impeça
De confiar nas pessoas novamente.
12.1.18
No silêncio do quarto
Pensando sobre descaminhos
Depois de algum exagero no vinho
Percebo que hoje
Já não é tão fácil
Lembrar detalhes do teu rosto
Ou de como era o teu sorriso
O exato cheiro do teu corpo
E o gosto do teu beijo
Estão tornando-se vagas
As lembranças dos nossos carinhos
Das últimas lágrimas que derramamos
Quando nos despedimos
Nem sei mais há quanto tempo
11.1.18
Elaboras
Todos os dias
Uma lista
Com as coisas
Que não podes deixar de fazer
E os últimos itens
Logo depois de:
- 23h00 deitar para dormir
Tem sido (desde o nosso último encontro fatídico):
- 24h00 esgotar a segunda garrafa de vinho
- 01h00 chorar tudo que for preciso
- 02h00 conseguir dormir decidida a aceitar o acontecido
10.1.18
Ela não entendia o fim da relação
Tudo parecia perfeito
Tentou mergulhar de corpo e alva naquela paixão
Apostando mais do que em qualquer outro amor antigo
Mas depois de muito pensar
Admitiu que talvez tenha lhe faltado delicadeza no trato
Atenção e não economizar nos carinhos
Hoje aceita que falhou no reconhecimento
Talvez o tenha desmotivado por causa disso
E aí o encantamento acabou pois deixou de ser recíproco
Mas por que ele nunca se queixou
Se sofria percebendo que algo assim acontecia?
Ela sempre esteve aberta para conversar sobre tudo, inclusive isso
Homens não falam e ele achou mais fácil fugir do que resolver
Deixou no ar a dúvida dos reais motivos e se ainda havia algo a fazer
Sem pensar jogou no lixo a história que tinham construído
9.1.18
Agora que foste embora
Atendendo ao chamado do destino
Sei que não voltas
Pois seguiste o teu caminho
Caminho que hoje vejo
Nunca foi ao meu caminho
Nem o caminho do meio
Não correram paralelos
Nem mesmo nos anseios
Cruzaram-se por acaso
Ou artimanha do destino
Só me resta agora
Levantar âncora
Içar velas
E retomar minha jornada
Cruzando o oceano
Rumo a outro esquecimento
E como tantas vezes já fiz
Sozinho
Em silêncio
E em paz comigo mesmo
8.1.18
Flor
É recurso de meio
Produto intermediário
Fruto
É resultado
E uma nova planta
É o legado de fato esperado
5.1.18
Quem não ama
Amarga o seu viver
E tende a formar
Raízes profundas demais
Que condenam o ser
A permanecer
Sempre num mesmo lugar
E este mesmo ser
Que aos poucos vai ficando
Sem novos horizontes para contemplar
Começa a se esquecer
De como voar
É fonte de prazer
4.1.18
Roubaste de mim alguns anos de felicidade
Mas não posso acusá-la
De nenhum crime ou arbitrariedade
Assumimos os riscos dessa relação
Sempre soubemos de sua fragilidade
Durante todo o tempo em que estivemos juntos
Tentamos atender a cada uma de nossas vontades
Fomos felizes enquanto nosso amor
Estava assentado na verdade
E o que se passou depois foi inevitável
Uma previsível fatalidade
Que será superada
Mais cedo ou mais tarde
Permitindo sim momentos de desespero e dor
Mas buscando lá na frente paz e serenidade
3.1.18
Nos separamos um dia
E ficou decidido
De comum acordo
Que para sempre
A culpa seria minha
Sei que nunca me perdoaste
Não entendi bem
Mas voltaste pra mim
Sem que eu esperasse
Eu me abri novamente pra ti
Pois cheguei a acreditar que era verdade
Mas agora é tu que me abandona
Vingando-te com frieza
E sem caridade
Dando o troco covardemente
Com requintes de crueldade
Cutucaste a ferida
Pra que ela nunca sare
E continue a sangrar
Até que tudo em mim se esvaia
Nem que seja preciso a eternidade
2.1.18
Num mundo
Em que não há certezas
Aquele que as procura a todo custo
Por não admitir a dúvida
Sofre muito
Seria mais fácil reconhecer
Que a verdade não é algo absoluto
E que o que hoje nos ajuda a viver
Por nos trazer algum sentido
Amanhã poderá ser visto
Como o maior dos absurdos
E não há nada de errado nisso
27.12.17
Hoje confesso
Mas preciso admitir
Primeiro a mim
O mais difícil não foi negar-te
Ou despedir-me de ti
O mais difícil pra mim
Foi deixar-te ir
22.12.17
Tenho que confessar
Não sou esse que achas que sou
Nem esse que consegues ver
E se só esse que achas que sou
É o que te convém
Então esse teu amor
Não é para mim também
Ele é para um outro ser
Esse que vês
O ser que achas que sou
E não para o que de fato sou
Não sei o que se passou
Se não te empenhaste pra valer
Só sei que o ser que sou
Não conseguiste ver
Por não ter conseguido se mostrar
Ou desististe de aprofundar o olhar
Sentindo-se ameaçada
Pelo que poderias encontrar
21.12.17
20.12.17
Me magoei tanto contigo
E nunca percebeste
Por isso não me espantei em nada
Quando me disseste
Que a decepção te martirizava
Revelavas estar magoada comigo
Uma hora teria que acontecer
Estava previsto
Daquele amor maravilhoso mas ficcional
O que restou foi isso
Agora a tristeza é que dá o tom ao recital
Todo sentimento exagerado é falível
Bem-vinda à vida real
Nem todos os buracos do universo são paraísos
19.12.17
Temos que ter em mente
Que nada é para sempre
Que as coisas boas passam
E que as ruins passam também
Que quanto a isso
Nada podemos fazer
E que no final de tudo
Estaremos sozinhos
Tendo que enfrentar
A nós mesmos
Com o sentimento
Que estejamos vestindo
Frente a frente
Como num espelho
Felizes
Ou infelizes
Realizados
Ou frustados
Ou com qualquer outra coisa
Que nos tenha ocupado
Mesmo que para isso
Não estejamos preparados
18.12.17
Quanto te ouvi dizer:
-Esta foi a última vez!
Comecei a chorar
Desabei.
Eu simplesmente
Não soube o que fazer.
Me lembo apenas
De te ver me dar as costas
Partir sem olhar para trás
E mais nada dizer.
Precisei reunir forças
Para me levantar
E mesmo machucado
Conseguir sair do lugar.
O tempo passou
E a vida se encarregou
De nos cicatrizar as feridas
Nos acalmar o coração
E desenhar nossas histórias
Totalmente isoladas
Sem qualquer relação
Mas essa cena nunca me deixou.
E agora voltas
Com teu corpo magro
Casaco surrado
Ombros arcados
Olhos injetados
Pele marcada
Precisando de proteção
Pedindo amparo.
Entra, vou cuidar de ti
Não sou um monstro insensível
Descansa, recupera tuas forças
Ficarás segura aqui
O lugar que deixaste
Dentro de min
Ainda está aqui
Mas te advirto
Isso não significa
Que voltarás a ocupá-lo
Deixo isto claro
Desde o início.
Foi assim que decidi quando partiste
E me ajudou a persistir
Pois sabia que um dia
Novamente nos veríamos.
15.12.17
Em seu devido tempo
Tudo virará pó
No ar tudo se soltará
Aí o vento virá
E tudo espalhará
Pra bem longe
Tudo o vento levará
E de ti e pra ti
Nada ficará
E de mim e pra mim
Nada restará
Tudo se perderá
Tudo se apagará
Em seu devido tempo
Tudo se esquecerá
14.12.17
Aproveita e desfruta
Daquilo que a vida te deu
Como um presente.
O olho no olho
O cuidado sincero
O abraço apertado
O toque delicado
O calor do corpo
O cheiro do desejo
O gosto ardente do beijo.
Muitos beijos
O gozo, o gozo, o gozo supremo
Que só acontece dessa forma
Quando se está com alguém
Que nos tem um amor verdadeiro.
O momento é efêmero
Não há como fazer durar mais
E do amanhã nada sabemos.
Não podemos fazer voltar o tempo
É preciso doar-se por inteiro
Para que depois não nos deixemos corroer
Pelo arrependimento
13.12.17
Vem pra dentro
Senta e vem descansar.
Enxuga essas lágrima
De apego sem sentikdo
Não adianta mais chorar.
Já perdeste aquele amor
Ele não tem como voltar.
Agora só te resta abrir o coração
Mostrar ao mundo que ele está vazio
E pronto pra um outro alguém entrar.
Mas deixe claro desde o início
Que se esse novo sentimento for verdadeiro
Mesmo que não seja infinito
Será muito bem-vindo
Tratado a contento
E poderá ficar o tempo que precisar.
12.12.17
Há noites que insistem em durar
Noites que penetram fundo
E se recusam a acabar.
Noites que não tem coragem
De nos fazer tempestar
E desfazer de vez
O enovelado sem pontas
De sentimentos confusos
Que insistem em nos torturar.
Noites de chuva fina e contínua
Que pra quem sente
Não tem nada de sereno
E martiriza o insone
Ferindo por dentro
Num lento e doloroso garoar.
11.12.17
A chuva devassa a terra
Faz despertar
Aquilo que a terra escondeu
Seus olhos
Ao encontrarem os meus
Revelarão segredos
Que nunca mais serão só seus
8.12.17
Me esvaziei por completo
Me doei
Até que mais nada
Sobrasse de mim
E agora estou aqui
Me acercando de ti
Recolhendo restos
Pra tentar me reconstruir
Com as coisas que não te servem mais
As partes que conseguiram escapar
E as raspas que deixaste cair
7.12.17
Amanhece
E voltando do sono
Na contraluz
Percorro o teu contorno
Com as gardênias
Que até há pouco
Em teus cabelos
Serviam de adorno
Minha linha do horizonte
Paisagem que não conhecerá o abandono
Vales, planícies, colinas íngremes
Terreno sinuoso
Cenário de encantos
A concretização dos meus sonhos
6.12.17
Se encontras alguém
A quem consegues abraçar
Fora da tela
Com o joystick de lado
Sem bônus ou vida extra
Longe do bem e do mal
E se esse ser a quem abraças
Te aquece o corpo
E desperta em ti
Algo que não entendes
E não te parece racional
Não tenhas medo
Meu amigo
Venceste o espaço fictício
E acabas de voltar
Para o bom e velho mundo real
5.12.17
Quando não há mais
Como remendar os buracos
É preciso dispensar o paletó surrado
E vestir um novo casaco
Aquecer melhor o corpo que enfraqueceu
Reconquistar a paz e voltar a viver
Como a si mesmo lá no passado prometeu
4.12.17
Ce n'est pas juste la vérité
Cela fait bouger le monde
Mais aussi le mensonge
Tant le réel comme la fantaisie
Soutiennent la vie
1.12.17
Sei que estás exausta e desiludida
Vem outra vez, eu te convido
Deita comigo e dorme tranquila
Prometo não te incomodar
Mesmo que isso me custe a vida
E eu velarei o teu sono
Lembra, sou a única pessoa em quem confias
Farei só o que tenho feito
Serei apenas porto seguro e boa companhia
Insone, sonharei o teu sonho
Tentando te ajudar enquanto restauras as energias
Pois sei que assim que acordares
Te sentirás novamente ultrajada e perdida
E sairás correndo em desespero
Sem ao menos tempo prum agradecimento ou despedida
Voltarás para o mesmo labirinto
De infinitas curvas e esquinas
Onde é fácil entrar
Mas que para sair só com a ajuda de uma mão amiga
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