17.7.17

Ainda citando fragmentos de conversas alheias


Essa ouvi outro dia
No caixa eletrônico
Enquanto esperava na fila:

Não me venha com recriminações
Sou escravo da vida
E você das convenções

14.7.17

Abrir mão do que realmente importa


Fugir dos sentimentos
Viver enovelado nas convenções
E nos impedimentos
É uma crueldade consigo mesmo
Causa um dano imperceptível no ser vivente
Que gradualmente evolui para uma apatia
Uma espécie de anestesia
Um achatamento da existência
Um suicídio progressivo da alma
Que finalmente culmina
Com o abortamento da própria vida
Restando tão somente uma carcaça inerte
Socialmente limpa
Mas triste
Insípida
E incompetente

13.7.17

Fragmento de uma conversa


Que animadamente acontecia
Entre dois amigos num semáforo da avenida Paulista
"Com tanta mulher disponível
Está cada vez mais difícil ser vegano hoje em dia"

Estaria ele discorrendo realmente
Sobre as dificuldades do vegetarianismo radical
Ou apenas se lamentando dos sacrifícios que precisa fazer
Para manter a monogamia?

Cria uma nova classificação dos seres vivos
Realocando sua companheira no reino vegetal
Enquanto as demais do mesmo gênero animaliza
Igualando-as a vacas, porcas ou cabritas a serem abatidas?

12.7.17

Conselho comum


De quem sabe trabalhar bem com dinheiro:
Não se deve depositar todos os ovos no mesmo cesto.

Será que é essa a explicação do porquê
O amor não se identificar em nada com o mercado financeiro?

11.7.17

Nunca te esqueças


Que o amor
É um sentimento planta
Que nasce pequenino
Cresce e se desenvolve
Com espinhos perenes
Que podem machucar
E é assim que se defende

Mas também não deves te esquecer
Que ele floresce no seu devido tempo
Se for cuidado a contento
Que sabe retribuir com beleza e perfume
Quando recebe dedicação e esmero
E é essa a razão
De tanto encantamento

10.7.17

Adoro acordar


Numa manhã fria
E te ver assim
Altiva
Circulando pelo quarto
Vestida apenas
Com minha camisa

7.7.17

Há noites


Que não mereciam morrer
Deveriam ser respeitadas

Por manhãs

Que só poderiam aparecer
Quando fossem chamadas

6.7.17

É hora de você partir



E depois
Não olhe mais para trás

Não tem jeito
Com ou sem você
Em poucas horas
O sol vai se levantar

Só não posso garantir
Se o que agora deixar
Ainda estará aqui
Da próxima vez
Que procurar

5.7.17

Continuo a te escrever poemas de amor


Mantendo enredo e contexto
Evitando lamúrias e desfalecimento
Envelopo ao menos um por dia
E remeto para o mesmo endereço
Na expectativa
De que encerrarás teu o recolhimento
Vindo até a caixa do correio
Abarrotada
Como jamais se viu em nenhum momento
E que lendo tudo que é teu por direito
Confirmes o que estou dizendo
Amenize o teu sofrimento
E te ajude
A continuar vivendo

4.7.17

Estava abarrotado


Com teus caprichos excessivos
Teus segredos inacessíveis
Tuas referências distorcidas
Teu confuso discernimento

Tive que desalojar muito de mim
Para acomodá-los todos juntos
E arrumá-los com cuidado
No mesmo compartimento

Chegou um momento
Em que não tinha mais espaço
Nem interesse por teus fracassos
Teu fantasioso desempenhos

Tive que desalojar tudo que obstruía os caminhos
Tua atenção quase sempre falsa
Tua lágrima rala que com qualquer vento evaporava
Teus frágeis argumentos, teu espelho

Tratei de chamar de volta
O que ainda pude alcançar
Meus quereres enfraquecidos
Meu autorreconhecimento

E tomei a firme decisão de seguir sozinho
Olhando em frente
Sem esquecer o passado
Mas de não perder mais tempo

3.7.17

Daquele amor límpido do passado


Impecavelmente cuidado
Cheio de urgências e desesperos
Hoje resta apenas um cansaço
Um asco
Um balde de ressentimentos
Um arsenal de palavras mal construídas
Mutiladas
Muitas nunca ditas

Engavetas no fundo de um armário
E dada a sua decomposição
Em tão adiantado estado
Servem bem como alimento
Para baratas e ratos
Impossíveis de serem esquecidas
Pois ainda irradiam um fedor intenso
Que e a tudo contamina

30.6.17

Aqui dentro


Há tanto espaço para ti
Como para o mundo
Com toda a terra e oceanos

Ajuda-me a preenchê-lo

Pois não posso continuar vivendo assim
Carregando em mim
Um vazio deste tamanho

29.6.17

Amor


Não vejo como diversos
Dos meus versos
O sexo que fazemos
A inspiração para o verbo
A métrica
O ritmo
O andamento
Tudo isso
Resulta do momento

27.6.17

De que me adiatam os livros


Se ainda que versado no vernáculo
Não aprendi a ler
Nem mesmo um parágrafo?

De que me adianta estar ao teu lado
Se não consigo te entender
E nos é impossível um diálogo?

26.6.17

Sabe aquele momento


Em que o pensamento é ocupado
Por um só termo: ingratidão?

Em que o coração aperta
A tristeza reina
A carne grita

O entorno é de total silêncio
Na cabeça o ruido é imenso
E o sentimento que te imobiliza
É o de uma terrível solidão?

23.6.17

Não, não é que deixei de te amar


Mas é que não aguento mais sofrer assim
O que preciso agora
É limpar minhas memórias
E me convencer
De que deixar de te querer não é o fim

Não, já decidi


E não é uma questão de não te amar mais
De não sentir

Mas sim de precisar não te querer mais
Pois quem sabe assim

O sofrimento desista de me acompanhar
E eu consiga prosseguir

22.6.17

Os versos são meus


Mas os enredos não
Capturados no mundo
Eu os tomo emprestados
São obras do acaso
Sonhos ditados
Desejos frustrados
Problemas sem solução
Casos reinventados

21.6.17

Amor


Ator
Diferentes papéis
Para cada personagem

Mudam cenários
Mudam enredos
Sempre em viagem

Veste êxtase e sofrimento
Mas quando ama de verdade
Abandona o receio e veste coragem

20.6.17

Está escrito


As ideias nascem
Proliferam
E voam rumo ao escuro
Universo profundo
Onde desaparecem as respostas
E se esgotam os sentidos

E tudo mais que existe
Também é sugado
Por esse desconhecido
Espaço perdido
Caminho sem volta
E sem limites

E não há o que possa ser feito
Para mudar esse destino
Não depende das vontades
Dos nossos erros
Do desenvolvimento dos engenhos
Ou da intensidade dos sacrifícios

19.6.17

Não quero virar pedra


Para não eternizar
Minha presença na terra

13.6.17

Nossas noites desfilam


Todas juntas
Na mente alcoolizada e confusa
E na fumaça do cigarro
Que embaça
A tinta descamada
No teto do quarto

Detalhes fluidos e misturados
Que vão tomando contornos
De lembranças que julgava perdidas
E agora tão nítidas
Mas é preciso esforço e foco
Para mantê-las em separado

12.6.17

Travamos uma guerra


Que pela contundência
E uso de estratégia
Nos pareceu que seria eterna

Desgastantes batalhas
E como armas
Só palavras

Quando caímos esgotados
E as bandeiras baixadas
O cenário era devastador

Sangue para todo lado
Montanhas de tristeza
Cinzas e dor

Não cantamos vitória
Só nos restou lamentar a derrota
Por nós dois

9.6.17

Volto, volto sim


Porque ainda é teu o meu amor
E também não acredito
Que este seja o fim

Mas só volto se souber que choraste
E que as lágrimas que derramaste
Foram lágrimas de dor

8.6.17

Mais importante que


Alcançar as estrelas
É poder vê-las brilhar

7.6.17

Volta


Sempre volta
De suas muitas noites
Intensas e vazias
Lábios de vermelho borrado
Um azedo no hálito
Vômito no vestido
Olhos inchados
Olhar injetado
Dores pelo corpo
Tropeçando no salto
E torcendo para que
Chegue em casa
O quanto antes
E possa se deitar
Sozinha
Enquanto ainda está acordada

6.6.17

Não preciso de homem nenhum


Pra cuidar de mim

Ela me disse isso
Aos gritos
Antes do fim

Que pena

Não entendeu
Que no amor
O cuidado de um para com o outro
É o maior dos tesouros

Que pena

Não percebeu
Que no nosso caso
Foi o que primeiro desapareceu

5.6.17

Não há como ser feliz no amor


Todo o tempo.
Mesmo que ele seja
O mais profundo e verdadeiro.
E isso é absolutamente natural
Em qualquer relacionamento.
Mas se o amor for clandestino
Além disso
Ele padecerá de um agravamento.
Pois a felicidade plena
Ainda que efêmera
Só está presente
Quando os amantes
Ficam frente a frente.
E fora desses momentos
Nem sempre tão frequentes
O que predomina
Quase sempre
É o sofrimento.

2.6.17

Nem sempre


O certo a fazer
É o que deve ser feito

Nem sempre

O certo a fazer
É o que pode ser feito

1.6.17

...e eu


Novamente apaixonado
Com a urgência dos viciados
Ultrapassando fácil
O limite do suportável