12.11.14

Ela correu todos os riscos



Rompeu com as convenções
Mudou sua forma de pensar
Arriscou se ferir
E a seus queridos magoar

Ele não correu nenhum
Bastou se estruturar
E assim que conseguiu
Pela fresta da porta olhar

Outra pessoa
Logo tratou de buscar
Deixando aquele amor antigo
Sem ao menos se despedir ou justificar

Foi desfeita a fantasia
Escancarou-se o vazio
Que antes só não era percebido
Por só ter conhecido a luz do luar

11.11.14

A lua agradece quando passas



E eu da janela
Meio sem graça

Me vejo invadido
Pelo aroma que deixas no ar

E ainda que tente
Desviar o olhar

Mas tendo a alma fisgada
Pelo teu feitiço

Fico imaginando coisas
Com a mente entorpecida

E o coração
Em louca disparada

10.11.14

Deixe a porta da sala destrancada



Mantenha acesa
A luz da escada
A água quente e uma toalha
Não engavete de vez os seus carinhos

Espero não demorar
E assim que eu me reencontrar
Sem pestanejar
Voltarei pelo mesmo caminho

Mas tenho que me achar
Guiado apenas pelo instinto
Com os pés descalços
Ainda que pisando em cacos de vidro

7.11.14

Conseguiram voar por um momento



E sobre as nuvens viajar

Passado o encantamento
Tudo o que não queriam mais

Era ter que colocar os pés
Em chão firme e voltar

Ter que novamente caminhar
Sob o sereno

6.11.14

Não deu certo



Porque enquanto um queria amar
O outro só precisava de ajuda
Até conseguir se recuperar

5.11.14

Há quem diga



Que a poesia é perda de tempo
Que não serve para nada
Mas creio que pode servir

Para ajudar no sentir
Romper o dique de lágrimas
Abrir o olhar para dentro de si

Colocar-se no ponto de explodir
Atrever-se a reler antigas páginas
Garantir um tempo para um outro ouvir

Cogitar partir
Juntar caquinhos de outras empreitadas
Apontar novas direções e até mesmo se iludir

Colocar o sujeito para refletir
Saber que não se está sozinho
E o risco do timão ter com quem dividir

4.11.14

Ele não tem como te devolver



Os preciosos passos que roubou
E tanto atrasaram
Mesmo sem querer
O teu processo de libertação

Mas já se comprometeu a nada mais subtrair
Saindo de tua vida de vez
Pedindo que mantenham amarrados
Seus pés e mãos

É só o que agora ele pode fazer
Liberar o espaço
Que ainda insistia em ocupar
No teu coração

Acredita, agora é pra valer
Estás correta em tua intenção
O tempo há de trabalhar a favor
E apagar o fogo desta insana paixão

3.11.14

Por mais doloroso que possa ser



É preciso continuar
Vasculhar-se por dentro
E escrever

E se há fantasmas
Infestando pensamentos
Colocá-los para correr

Só assim
Será possível
A tudo superar

E quem sabe um dia
Até mesmo esquecer
Ou não mais se importar

31.10.14

Pela manhã



Quando o despertador me expulsa da cama
Me impedindo de ficar

Sei que é inútil
Mas peço sempre para o tempo parar

E que não exista no mundo
Qualquer outro lugar em que eu possa estar

Afinal, não é querer muito
Não é pedir demais

Ficar mais um instante
Ter você um bocadinho mais

Os dias são sempre longos
A saudade não me dará paz

Por isso tento todos os meios
De no trabalho me concentrar

Encerrar logo os compromissos
E para casa o mais rápido possível retornar

30.10.14

Quando a mão amiga chegou



Com toda força nela te agarraste
E depois de saíres do poço
Sem muita demora
Até o peso perdido recuperaste

Hoje, olhando de dentro
A dimensão do buraco
Pode-se entender melhor
O trabalho que foi necessário

E é triste perceber
Ainda que sem querer
Repetiste a mesma receita
Que um dia te aplicaram

Foste embora
E nem ao menos suspeitaste
Como era necessária a tua presença
Em mais esta ação de resgate

29.10.14

Por favor



Não me enquadrem em modelos
Idealizados ou pré estabelecidos
Não coloquem no fogo por mim
Suas preciosas mãos
E nem me cobrem eternos compromissos

Vocês não sabem quem sou
Não ouviram minha a história
Não entenderam a minha lógica
Não imaginam de onde venho
E nem pra onde vou

Sou mutante por dentro
Enigmático para mim mesmo
Mudo os conceitos todo o tempo
Sem apegos, medos ou embaraços
Se o que penso acho certo e, o certo, válido

Mais ainda neste atual momento
Em que tenho me empenhado
Em resolver antigos desapontamentos
E por isso não posso mais ser
O mesmo que viam no passado

Busco a minha paz
E jamais aceitarei para sempre me sentir
De mim mesmo desencontrado
Agindo em desacordo com o que acredito
Pois nunca temi ser tachado de esquisito ou mascarado

28.10.14

Preciso informar



Que hoje
Pode ser até

Que o corpo
Venha a colaborar

Mas que o sentimento
Não terá como acompanhar

27.10.14

É que o meu jeito de te amar



Não confere
Necessariamente
Com aquele

Com que queres
Que te ame
Sempre

24.10.14

Estrela companheira



Que ha tempos sigo
E sem impor condições
Se acerca de mim
E me segue

Brilha à noite
Estreitando vínculos
Se despejando em carinhos
Até que sempre juntinhos
Nos encontre o sono
E em sonhos nos carregue

Também me ilumina o dia
Deixando qualquer infortúnio
Mesmo que profundo
Muito mais leve

23.10.14

Este ano


A água ainda não veio
E o lavrador chora
Pelo que já deveria ter colhido
Pelo suor perdido
E pelo solo seco

Tenta se manter firme
Pensando nos filhos
Apegando-se ao divino
Selando promessas
Clamando por misericórdia
E busca alento
Nas lembranças dos bons tempos
Tão presentes na memória

22.10.14

Comem da mesma comida



Mas não da mesma porção

Seguem com suas rotinas
Em seus próprios trilhos
Carregando nos ombros
O fardo da obrigação

Mas no final do dia
Com a jornada cumprida
Celebram o amor e a vida
Descansando as locomotivas
Sob o teto da estação

21.10.14

Novamente parei de fumar



Agora sofro
As tentações do querer
Mas continuarei a lutar
Pois desta vez
Consola-me saber
Que por mais dolorosa
Que a abstinência possa ser
Uma hora ela vai passar  

20.10.14

O beijo



Que antes
Do fundo da boca partia
E todos os territórios invadia

Hoje na irritante pressa
Conforma-se com a testa
Ou a face apenas tangencia

O abraço

Que antes
Estralava vértebras de tão apertado
E o corpo suspendia

Hoje não traz mais tanto conforto
Mal enlaça os amantes
Cada vez mais se distancia

O sussurro

Que antes
Ao pé do ouvido
Com pouca lenha a fogueira acendia

Hoje carrega asperezas
Palavras frias
Críticas cheias de rancor e ironia

O sexo

Que antes
Permeava todos os momentos
E até com imprudência acontecia

Hoje exige agendamento
Condições adequadas
E se embaraça na burocracia

A cumplicidade

Que antes
Contra as ameaças do mundo
Seguros em si os mantinha

Hoje resume-se à partilha de um leito
E quando ocorre de acordarem juntos
Mal se enxergam ou desejam bom dia

17.10.14

É triste ter que parecer feliz



Sempre

O mundo nos cobra a alegria perene
E temos que explicar
Sistematicamente

Que estar triste
Não é estar infeliz
Necessariamente

Que é triste estar infeliz
Mas a infelicidade é muito maior
Do que a simples tristeza que se sente

Que a tristeza neste momento presente
Não é infelicidade
E disto estou bem consciente

16.10.14

Ninguém abdica



De um amor inteiro
Para poder dispensá-lo
Já deve estar fraturado

O amor monolítico e verdadeiro
Triunfa pela certeza que tem
Na integridade de sua estrutura

Aquele amor imperfeito
Mesmo que carregue como defeito
Apenas uma tênue fissura

Pela dúvida
Estará sujeito ao fracasso
E com o tempo a terminar em pedaços

15.10.14

Somos seres frágeis, intensos



Dominados por sentimentos insanos
Tempestades que nos varrem por dentro
Sem atenção ou cuidados
Com a truculência dos tiranos

Correm desembestados
Quebrando objetos
Tirando tudo do lugar
E ainda espalhando os cacos

A razão precisa domá-los
Pois exite o risco
De fecharmos as janelas
E acabarmos sem luz, confinados

De bloquearmos as portas para o mundo
Com a montanha de entulho gerado
Até que um dia cheguemos ao ponto
De não mais conseguirmos ser visitados

14.10.14

Para dar vez à razão



É preciso distanciar-se um pouco
Sair do olho do furacão

Fazer um voo panorâmico
Olhar melhor

E confirmar de um outro ângulo
O absurdo da situação

13.10.14

Me ligas na madrugada



Acordo assustado
Não entendo uma palavra
Me pareces esquisita
Construções desconstruídas
Voz embargada
Parece que deliras

Como fui idiota
Não percebi na hora
Que o que de fato importava
Não era o que dizias
Mas o que querias
Era de ajuda que precisavas

10.10.14

Ele é um engenheiro convicto



Trabalha com cálculos
Estatísticas
Processos
Vive afogado em algorítimos

Enaltece o pensamento lógico
E em seu insofismável pragmatismo
Nem tenta entender os que sofrem
Seres inferiores que amargam conflitos

Orgulha-se de nunca ter se apaixonado
E quando quer o que entende como amor
Acha mais simples pagar pelos serviços
E chama isto de gestão de riscos

9.10.14

Tento seguir marcas imaginárias



Pegadas na areia
Daquela praia
Que um dia abrigou nossos sonhos
De caminharmos juntos
De mãos dadas

Agora estão cada vez mais difíceis
De serem encontradas
E nem mesmo as desajeitadas ondas
Podemos responsabilizar
Por apagá-las

8.10.14

Preciso que me devolvas



Os encantamentos todos
Que via nas coisas
E me pareciam óbvios
Enquanto estavas aqui

Agora que não tenho teus olhos
Vejo com clareza a minha cegueira
E sem alegrias na vida
Sei que sozinho nada entendi

E a sabedoria que julgava ter
Hoje me parecem tolices
Bobagens vazias
Se contigo não as posso dividir

7.10.14

E se amanhã eu acordar diferente



Por favor
Não me queiras mal
Sou um ser que não raro se perde
Demora a se achar
E muitas vezes
A si próprio não entende

Não gastes teu tempo pensando
Que este novo sujeito
Que agora te surpreende
É um modelo acabado
E será exatamente o mesmo
Que encontrarás aqui sempre

26.9.14

A dura realidade do peixe



Que debaixo d'água
No mar
O próprio sal
Não consegue diferenciar

Não obtém alívio de sua dor
Por não ter como observar
As lágrimas sentidas
Que deixou escapar

25.9.14

Mulher, Mulher



Acuaste-me sobre a cama
Com estes teus olhos
Profundos
Imensos
Olhos carregados de desejos
Injetados pela paixão
Para os quais não há como ter segredos
Despejaste-os sobre mim
Paralisando-me na fuga
Me comendo por dentro

Fecha-os agora mesmo
Abranda a tua fome
E acalma-te
Predadora felina
Desmancha-te
Em bocas
Mãos
Tetas
Cus
Bocetas

Esfrega cada parte
Sobre minha pele porosa
Sugadora e sedenta
Pois embora rendido
E refém
Também sou fera
Sou forte
Sou fraco
Sou homem
E não resisto a tanta oferenda

24.9.14

Não te empenhes demais



Para ter a quem não queres tanto assim
Não permitas que o desafio da conquista
Seja o que mais ativa a tua energia

O desinteresse não tardará a chegar
E assim que tiveres cativa
Aquela que acreditou na tua fantasia

Vais abandoná-la sem titubear
E isso não se faz
É pura covardia