6.5.10

Palavras


São seres vivos

Linhas traçadas não as prendem
Papel não as confinam

Voam e se dispersam
Se perdem quase sempre

Mas às vezes no ar se encontram
Se combinam
E formam versos simplesmente

5.5.10

A casa em que crescemos


E que por nós foi construída
Precisa ser abandonada
Já é tempo
Antes que desabe
Sobre nossas vidas

4.5.10

Epitáfio


Na companhia de ópera
Era baixo profundo
(Timbre raro)

Pouco era ouvido
Quase não tinha trabalho
(Deprimiu)

Decidiu levar sua voz ao extremo
Um limite até então nunca alcançado
(Conseguiu)

3.5.10

Em alguns lugares


Por onde passei
Pioneiro de mim mesmo
Fui

Quando retornei
Pude constatar
Que nada restou do que plantei

As trilhas se apagaram
Arbustos cresceram
E as aranhas a tudo cercaram

Os que conheci
Morreram todos
Foram dizimados

De que me serve a vida sem um passado?
Se ruíram as pontes?
E meus bolsos estão furados?

Hoje não me encantam
Nenhum dos caminhos
Que me são apontados

Como uma cigarra
Terminarei aqui
No último suspiro do meu canto afogado

30.4.10

Santo Antão vencido


Quando passas
A pedalar ligeira
O teu perfume
Como as ladainhas dos missais
Se derrama pelo passeio
Feito pequeninos cristais

Trilha iluminada
Prêmio da criação
Onde o meu olhar é cativo
E a acompanhar-te é obrigado
Até que desapareças
A caminho do paraíso

Impossível não admirar-te
És livre
És bela
És viva
A consubstanciação do milagre
A consagração da alegria

O que sinto
Não se cala sozinho
Insuportável é o desejo
Amargo o celibatário desígnio
Fogo que arde por dentro
E me faz hesitar no juramento

Concretiza os meus sonhos
Ninfa dourada
Vem para que te possuas
Vênus da praia
Serás deusa em meu altar
E como rainha na casa do supremo hei de te louvar

29.4.10

Nestas paragens tão distantes


O tempo lúgubre e ameaçador
As intempéries tão pouco comedidas
Atingem em cheio os sentimentos
E me fazem querer reviver
Uma situação agora perdida

Tolo imperdoável
Em tempo hábil não percebi
Que o sol nunca se punha
E o verão era perpétuo
Quando estava junto a ti

28.4.10

Antigamente


Andava pelas ruas
Olhando sempre para o chão
Não que fosse um sujeito deprimido ou ensimesmado
Só não entendia a razão

Recentemente
Ao saber o motivo
Confesso
Fiquei mais tranquilo

Um defeito na coluna
Que me é por demais dura e curvada
Fazia enxergar o mundo como mais curto
Sem poder ver até aonde vai a estrada

Via pernas
Nunca rostos
Via pés
E eles quase nada me diziam

Via poça
Onde alegavam oceano
E roda-pés
Cordilheiras imaginando

Tudo isso aos poucos
Foi me entristecendo
Comecei a não aceitar
Viver num mundo tão pequeno

Mas nessa condição
Tinha ao menos um consolo
Mesmo com a limitação
Sempre mantive zelo com o corpo

Pois encontrando latas e papelão
Objetos perdidos ou abandonados
Tudo recolhia
E em alimento era transformado

Não me deixei abater
E assim que entendi a situação
Tratei de meu problema resolver
Aprendendo a caminhar com as mãos

Hoje só consigo ver o que é elevado e distante
Dizem que virei poeta sujeito avoado
Acho que ao sair de um problema outro criei
Agora é a fome que me atormenta um bocado

27.4.10

Pássaros em formação


Afinam a cantoria
Enquanto perseguem
O que ainda resta deste dia

Palavras não nascem poemas


Quando geradas
Devem ser rapidamente sopradas nas ventas
Para que em verso despertem

Um único e enérgico movimento

Mas se não funcionar
Não se lamente
Descarte tudo
E tente novamente

26.4.10

A criação escraviza


Mas também liberta
O artista isto sente
Quando dá o último entalhe na pedra

Com o cinzel posto em descanso
E o polimento iniciado
A vaidade em pó vai se transformando
E o brilho do desapego é despertado

23.4.10

Há uma intransponível distância


Entre o ser e o fato
Pensa o peixe
Observando o mundo
De dentro do aquário

22.4.10

Colapsados caminhos


Quem neste mundo
Ainda anda por trilhos?

Onde estarão os trens (que nos fizeram crer)
Deveriam conduzir nossos destinos?

20.4.10

O poema é folha


Que no outono
Amarelece em silêncio

Mesmo sem querer
Solta-se do galho
E voa no vento

Sempre há de encontrar um chão
Num bosque ou beira da estrada
Comporá o solo
Se em húmus for transformada

Mas se cair sobre as pedras
Exposta ao tempo
E muito pisada
Desaparecerá como se toda uma existência
Não lhe tivesse valido nada

19.4.10

Respostas


Nesses dias de aço
Ser pedra
Torna-se necessário

Nesses dias de água
Ter raízes
É uma vantagem

Nesses dias de ventos
Armar velas
Ajuda um bocado

16.4.10

No amor


O poeta vê poesia
E ser diferente
Não poderia

Vê uma pedra
Que ricocheteia na superfície de um lago
E nesse movimento vê poesia

Vê poesia num perfil
Que tem na ponta do nariz
O brilho de uma gota na iminência de cair

Consegue ver poesia
Numa afta dolorida
Escondida no canto da língua

Vê poesia até
Quem diria
No cocô da galinha

Tem a necessidade de vê-la
Mesmo que esteja escondida no mais estranho tema
Afinal é a poesia que lhe mantém a vida

15.4.10

É possível amar (até mesmo) o que é feito de pedaços


Junte um a um os meus fragmentos
Mas junte com cuidado

Use o instinto
Já que não temos manual ou algorítimo

Estou desjuntado mesmo!

E se tudo de novo funcionar
Será bom para nós dois

É como dizem por aí:
"Se possível, sempre reciclar"

14.4.10

Os mundos todos


Que noite e dia habito
Limitam os meus passos
A cinco

Atenuam a luz
Não me aeram as ventas
Não comportam a minha magreza

Tetos baixos demais
Costas curvadas
Olhos no umbigo cravados

São muitos os ângulos a serem roídos
Tarefa mais fácil
Quando os dentes estão intactos

É preciso inventar a esfera
Agitar-se dentro dela
Rolar morro abaixo

Cair no mar
Ter um barco
Deixar para trás tudo o que é cúbico

Furar as paredes
Rumar à frente usando os próprios braços
Remar sempre

13.4.10

Não tome como definitiva




Esta palavra

Por certo
Mesmo que escrita
Há de mudar

Hoje
É sim
Uma verdade absoluta e lapidar

Amanhã
Pode ser não
E nada
Minha convicção poderá abalar

12.4.10

Por fim


Calaram-se os homens
E nada mais tiveram a dizer

O silêncio
Amordaçou-lhes a indisfarçável mediocridade

Existências infames
Asfixiadas por enovelados discursos

Mentes submersas
Abrigando almas molusculares

Apocalipse do gênero
Peçonha auto-inoculada

Toneis vazios de inútil enchimento
Que nem mesmo notam terem perdido o fundo

9.4.10

Dê-nos só mais este tempo


Ao menos até o fim da tempestade
Confie

Não seguimos qualquer rota
Até o momento

Serão apenas mais três luas
Para que seque a laguna e possamos saber

Se na matéria de que é feito o nosso amor
Continua equilibrado o bem-querer

O poeta


Com o ventre rasgado
Ofereceu suas vísceras
Aos lobos
Para que se fartassem
Se lambuzassem
E que pelos restos
Mesmo os mais insignificantes
Se matassem

8.4.10

Não reclamo


Chegaste aos poucos

E esta casa
Há muito
Já percebo
Não é mais só minha

A tua presença
Em todos os cantos
Pode ser notada
E a tudo se harmoniza

Não encontro justificativa


Para fazer o que faço
Só sinto
Tenho que fazê-lo

À noite
É para nunca mais
Assim me deito

Após um verso
Um abraço
Um beijo

Ao amanhecer
É para todo o sempre
Invariavelmente

7.4.10

A poesia


É minha segunda existência
Tempestade aprisionada na cabeça
Eterna luta entre a flecha e a espada

O reflexo que vejo no espelho
Nada me desperta
Além de estranhamento

Retrato pintado em outra realidade
Cada dia mais fluida
Onde cada vez mais é difícil conectar-me

Vivo


O que me passa pelos sentidos
Penso
Mas não acredito muito nisso

6.4.10

Quando não lhe couberem mais os sapatos


Ou quando o rastro do dedo
Na poeira sobre a mesa
For indisfarçável

Não mais adiantará pedir ao poeta
Que deixe o céu
E volte a ser terra

Digo coisas que nem sei


Não as sei
Porque ainda não as inventei

Invento-as
Para que a mim façam sentido

Se sentido fizerem (saberei que não estou louco)
E algum laço com o mundo terei

5.4.10

És terra


Sou água

Chuva
Que se derrama
Sobre teu corpo

E a todo campo alaga

Só estaremos vivos


No futuro distante
Se justificarmos presença
No passado recente

1.4.10

Semana santa


À porta da igreja
Sinto escorrer pelas escadas
Um insuportável cheiro de medo e parafina

Predominam a escuridão o silêncio
E as expressões vivas ou mortas
São todas de resignação e dor

Um velho se aproxima e deixa escapar seu pensamento:
“Se existir um deus
Por certo não deve estar lá dentro”

Acredito que tenha razão
Pois estaria o supremo
Usufruindo dos frutos de sua criação

Dialogando com o vento
Interessando-se por seus caminhos
E aquecendo a face na luz suave que ainda resta no horizonte